A eleição presidencial de 2002 está viciada pelos absurdos da legislação eleitoral que proíbe nas televisões e rádios a crítica jornalística aos candidatos a presidente. Na prática, a partir de agora, só os presidenciáveis podem criticar-se uns aos outros em tais veículos.
Quem perde com isso? Os eleitores que não recorrem aos textos da mídia impressa, livres da censura legal. Tanto mais que os programas gratuitos, nas tevês e rádios, são vistos com reservas, pois, neles, em geral, os candidatos se auto-endeusam e satanizam os adversários.
A mídia impressa, claro, está sujeita às paixões dos analistas, daí ser conveniente o cotejo de suas opiniões com as dos outros veículos. De resto, o alcance dessa mídia tem limites: o alto índice de analfabetismo no País; os salários baixos dos brasileiros, que lhes torna quase proibitiva a compra de jornais e revistas; e os analfabetos funcionais que não entendem corretamente o que lêem.
Por isso, aliás, a nova lei é pior do que a do ministro Falcão (aquele do governo Geisel, que nivelou os candidatos nas eleições, reduzindo-os a retratos, a nomes e a números de registro). Hoje, o tempo de antena distribuído entre eles é desigual, fixado com base em resultados de realidades eleitorais superadas ou em arranjos partidários comprados e/ou feitos à revelia dos militantes.
Dado o custo para montar programas de tevê, a verdade é uma só: quem tem mais tempo, mais dinheiro, e tevê, antes, o apoio da mídia eletrônica, chega mais fácil ao eleitor do que o oponente, sem meios de resposta a todos os golpes recebidos.
Essa é a eleição da desigualdade política e econômica. Análises, na tevê, mesmo isentas, podem constituir crime. A televisão livre está, pois, fora do ar.
No regime militar driblava-se a censura com poesias. Aliás, notáveis, como os poemas da 12 dinastia egípcia, que o professor Emanuel Araújo da Universidade de Brasília (UnB) inclui em Escrito para a Eternidade. Num deles, como se vivesse hoje e o faraó fosse FHC, no seu governo em transe que precisará de 30 meses para endireitar (Armínio Fraga) o poeta lamenta: ''O País está abandonado aos que fazem o mal.../ Os erros vagam/ E não têm fim.'' É o Brasil refletido nos versos de Kha-kheper-Ra-seneb.
O que a censura legal quer? O silêncio sobre as ruínas de nossa economia e a liquidação do patrimônio nacional, para que, a pretexto de reparar esses erros, os autores de tal devastação e seus ajudantes continuem no poder por via indireta.


RUBEM AZEVEDO LIMA, é jornalista em Brasília

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