Rui Fabiano
O governador do Paraná, Jaime Lerner, e o ex-presidente Itamar Franco vivem, cada qual a seu modo, as facilidades e contradições do quadro partidário brasileiro. Ambos estão sendo cogitados para integrar o novo partido de centro-esquerda que está sendo articulado a partir do PPS, sucedâneo do Partidão (PCB).
Ocorre que ambos estavam prestes a fazer opções diametralmente opostas, no conteúdo e na direção. O governador paranaense Jaime Lerner, por exemplo, está (estava?) com um pé dentro do PFL, partido que professa o liberalismo político e econômico - e, nos termos da nomenclatura política ainda em vigor, de centro-direita.
Antes, Lerner tentou entrar no PSDB, a convite de sua direção nacional, mas foi barrado pela seção local, por razões que passam ao largo de doutrina ou idéias políticas. Os caciques locais não queriam dividir (ou perder) o comando. Em ambas as situações - PSDB e PFL -, a opção de Lerner, que estava na oposição (PDT), pressupunha adesão ao governo Fernando Henrique, ao qual, aliás, jamais se opôs.
O presente convite, que Lerner examina, pressupõe guinada radical. O novo partido de centro-esquerda surge como alternativa oposicionista de poder. Quer disputar a sucessão presidencial. Lerner, se aderir, deixa de ser a nova estrela da constelação governista e torna-se o oposto: potencial candidato de centro-esquerda ao poder.
Já Itamar Franco, que é embaixador brasileiro na OEA - e, portanto, funcionário de confiança do governo Fernando Henrique - continua em busca de uma boa tribuna de oposição. Recebeu há dias convite para candidatar-se a presidente da República pelo PL, Partido Liberal, igualmente posto à direita do espectro partidário.
Segundo noticiam os jornais, o ex-presidente sensibilizou-se com a proposta, feita pelo presidente do PL, Álvaro Valle, e ficou de examiná-la. Examina também convite do PMDB, partido sem nitidez doutrinária e sem definição política - está no governo, mas não apóia o governo. Itamar também não se definiu: ora critica o governo com ardor oposicionista, ora troca elogios públicos com o presidente.
Os que organizam o partido de centro-esquerda, por sua vez, não parecem tão rigorosos quanto à nitidez doutrinária. Não pelo menos neste momento. O partido quer reunir quadros com expressão nacional, para compensar as limitações de prazo com que nasce.
Possuir nomes de circulação nacional facilita as coisas - e, além de Lerner e Itamar, há políticos de prestígio como Ciro Gomes, Roberto Freire, Victor Buaiz, José Genoíno e Paulo Delgado sendo cogitados. Nada mau. Além do mais, o que é, afinal, um partido de centro-esquerda? Defini-lo pressuõe clareza conceitual e respeito do que seja ser de centro e ser de esquerda.
E é exatamente porque não há essa clareza que se estabeleceu uma crise existencial no quadro partidário brasileiro.





