Rubem Azevedo Lima
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Nos novos tempos, pretende-se que o neoliberalismo seja a vontade universal. Por sua vez, o presidente Fernando Henrique Cardoso, ex-parlamentarista e membro de um partido contrário aos abusos presidencialistas, presidencializou-se, nos últimos anos, e lutou até conquistar o direito de instaurar no país um presidencialismo em dose dupla.
Muda-se o ser, muda-se a confiança. Após a luta de FHC, os brasileiros descrêem de mudanças que dão ao país US$ 70 bilhões em divisas, mas não eliminam seu bolsões de pobreza, não vencem a dengue nem a tuberculose.
Todo o mundo é composto de mudança. Mas o que trazem tais mudanças? Antes, o desemprego era baixo. Agora é alto e sobe cada vez mais. Há três anos, eram desempregados 17% dos narcotraficantes; hoje são 70%. O que se diz sobre isso? Que a inflação acabou e o Brasil pode, pois, mudar e progredir, tomando sempre novas qualidades.
Mas, além do controle da inflação, que novas qualidades temos? Só a conquista de um título, pelo presidente FHC, conferido pelo presidente Clinton: o de campeão mundial do neoliberalismo. Continuamente vemos novidades. Como a dos juros estratosféricos, que inibem investimentos e destroçam o parque industrial brasileiro. Novidades malfazejas, diferentes em tudo da esperança. Quem podia esperar, no Brasil, a redução do ser humano a mero fator passivo, de lucro ou de prejuízo?
Do mal ficam as mágoas na lembrança. Por isso, muita gente está magoada com o governo, que lhe oferecia o paraíso, no começo, mas leva o país às portas do inferno da violência, nos espaços públicos, e negocia nosso patrimônio estratégico, para reduzir as dívidas externa e interna. Foram-se os anéis e o Brasil ainda perdeu os dedos, nessas transações. Que resta aos brasileiros? Dívidas crescentes e quase mais nada. E do bem (se algum houver), a saudade.
O tempo cobre o chão de verde manto. O que é verdade, em parte. Nos últimos anos, fizeram-se no país grandes plantações mecanizadas, que empregam poucos trabalhadores e produzem principalmente para exportar e obter divisas. Para as carências dos pobres, o tempo não criou nenhum manto verde.
Sob tal aspecto, no dizer do poeta, esse manto, que já coberto foi da neve fria, em mim converte em choro o doce canto. Mas, insiste-se em mudanças que não mudam o essencial é agora este mudar-se cada dia, a febre mudancista que não resolve as injustiças sociais do país. E o governo outra mudança faz, de mor espanto: a que muda para pior.
Significa isso que não se muda já como soía, com boas mudanças feitas com participação da sociedade, para todos e não para alguns.
As frases entre aspas são versos de um soneto de inconformismo político de Camões, antes de Portugal virar apêndice da Espanha. Não havia horário eleitoral, vendendo ilusões ou metendo o povo em filmes Rosa Púrpura do Cairo, da propaganda oficial. Mas a má política e a vã.





