À margem do caso escandaloso do deputado Sérgio Naya, um dos esteios da bancada governista no Congresso, e das ofertas a governadores do PMDB, para trocarem votos por verbas públicas e apoiarem a candidatura situacionista, em sua convenção partidária - mais um desestímulo à onda moralizadora com que os brasileiros teimam em limpar o país - la nave va, entre outros maus exemplos. Maguito Vilela, governador goiano do PMDB e candidato à reeleição, oferece, agora, exemplo de desrespeito que alguns políticos têm pela democracia.
Ele se elegeu vereador pela Arena, que apoiava o regime militar. Ao fim de sua vereança, a Arena, que virara PDS, elegera cinco generais para a presidência, pelo voto indireto e público, sem consulta ao eleitorado. Em 1982, ele saiu da Arena para o MDB, atual PMDB, elegendo-se deputado estadual, deputado federal e governador. Hoje ele apóia, no PMDB, a candidatura de FHC à reeleição.
É direito legítimo de qualquer um votar, em convenções livres, no que bem entender. No caso, na candidatura presidencial própria, ou não. Mas Maguito foi além. Disse que apoiará FHC, ainda que seu partido tenha candidato. Para fazê-lo, porém, se ficar no PMDB, deverá desistir de candidatar-se à reeleição ou a qualquer cargo eletivo, imolando-se politicamente - outro direito seu - em benefício daquele a quem julga insubstituível na presidência. Será, então, um cavalo de Tróia no PMDB. Mas, se disputar a eleição e rasgar - conforme ameaça - a decisão dos convencionais, eventualmente contrária a seu voto, Maguito desrespeitará a decisão democrática da maioria, ficando sujeito, por isso, a perder, na Justiça Eleitoral, o registro da candidatura ao cargo que estiver disputando.
Os partidos não-ideológicos são, quase todos, pontos de encontro do oportunismo político. Em 1950, o PSD não se engajou na eleição de seu candidato presidencial Cristiano Machado. A cúpula do partido ajudou Getúlio, do PTB, a voltar ao poder. Getúlio foi eleito e deu no que deu. Criou-se até o neologismo cristianizar. Em 1994, uma exceção: a dissidência antimalufista não compareceu à convenção do PDS, criou o PFL e elegeu Tancredo.
Não teria chegado a hora de punir, exemplarmente, os detentores de cargos eletivos que traem seus partidos, quando estes mais precisam dos que se elegeram às suas custas? Em duas eleições presidenciais - as de Ulysses e Quércia - o PMDB elegeu as maiores bancadas de senadores e deputados federais, mas ambos tiveram baixo desempenho eleitoral. Tinham sido cristianizados. Além de candidatos, os dois presidiam o partido e ficaram constrangidos em punir os correligionários dissidentes. O atual dirigente do PMDB, deputado Paes de Andrade, que vai disputar só a reeleição, não tem, pois, nada que o impeça de cumprir a promessa de enquadrar, perante o TSE, nas penas dos estatutos partidários, os trânsfugas eleitorais. Por que não começar a moralizar também os partidos, ajudando-os a resistirem à corrupção e a terem coerência? Seria uma pequena e boa lição de que se quer, de fato, que la nave va, porém mais leve e mais limpa.

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