Rubem Azevedo Lima
Os acordes da sinfonia pró-reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso ocuparam, nos últimos dias, os espaços que a imprensa reserva aos fatos políticos e econômicos do país. O jornalista Mino Carta referiu-se a essa volúpia reeleitoralista, em seu artigo dominical, no Correio Braziliense, ao falar do que julga escasso espírito crítico dos jornalistas em relação ao governo FHC.
Tais acordes, emitidos pela sinfônica reeleitoreira, revelam os interesses das multinacionais. Representantes dessas empresas reforçaram, na Folha de S. Paulo, o solo - menos musical do que sociológico - da lira eleitoreira do homem das pesquisas de opinião pública do Ibope, Carlos Augusto Montenegro. Como só vê a superfície das águas que correm para as eleições, Montenegro devia ser cauteloso, mas foi categórico: Desastre algum abala as chances de vitória de FHC. A memória política no país é curta e o Ibope, depois, sempre tem sua desculpa: as pesquisas refletem o momento em que são feitas, mas o tempo muda tudo.
Na Folha, estrategistas de bancos de investimentos, baseados em Nova York e Londres - que programam o melhor ganho possível para os investidores de suas carteiras - dão até conselhos ao governo, a fim de facilitar a reeleição de FHC: mantenha os juros altos, para proteger o real de novos períodos de volatilidade nos mercados mundiais. Todos admitem que esses juros afetam a produção econômica, desestimulam investimentos industriais, reduzem o poder aquisitivo dos consumidores e causam desemprego. Ainda assim, dizem que esses fatores talvez só dificultem a vitória de FHC no primeiro turno.
Cabrera, do Merrill Lynch, é tão otimista quanto Montenegro: a reeleição de FHC são favas contadas. Outros estrangeiros dizem o mesmo. Cabrera recomenda a FHC que se preocupe mais com a eleição dos congressistas, para manter a coalizão que o apoiou até aqui e será indispensável à segunda geração de reformas. Pelo jeito, ele quer que o governo faça algo - como as multinacionais fizeram, em 1962, com o IBAD - para eleger novo rolo compressor no Legislativo.
Esses futurólogos político-econômicos não perceberam que o México e os tigres asiáticos estourariam, mas querem que tenhamos, em 1999, a mesma democracia parlamentar de hoje, com a qual o governo, valendo-se de um dos dois requisitos democráticos, a maioria (produzida, no caso, por adesões pós-eleitorais), impôs sua vontade ao Legislativo. Não se recorreu, na prática, ao segundo requisito da democracia: o de que a maioria nunca viole a essência da democracia: a vontade popular. Em nome da maioria, houve, na atual legislatura, alguns atentados à ordem democrática. Os que os praticaram têm consciência disso, pois se negaram a submeter tais violências a uma consulta popular. Essa consulta se fará em 4 de outubro próximo. Os brasileiros julgarão o presidente por seus atos, juntamente com os dos que o apoiaram no Congresso, no ministério e nos governos estaduais. Não se trata, pois, de uma eleição só, mas de várias eleições, e muitos serão os derrotados.





