Rubem Azevedo Lima
As emissoras de televisão mostraram cenas de protestos populares contra o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, durante o Carnaval, no Rio de Janeiro, Brasília e Salvador. Noutras capitais, apesar de não terem aparecido nos vídeos, os foliões também falaram de suas dificuldades, decorrentes do aumento do desemprego e do corte de direitos dos trabalhadores.
Populares anônimos e modestos, além de raros políticos, aproveitaram os desfiles carnavalescos para estender faixas contra o desemprego, de um lado, e, do outro, o que algumas chamavam de empreguismo governamental, referindo-se à nomeação do genro do presidente, David Zylbersztajn, para presidir a Agência Nacional do Petróleo, e do filho de FHC, Paulo Henrique, para uma diretoria da Light.
No plano político propriamente dito, os manifestantes não esqueceram o episódio da compra de votos, no Congresso, para permitir a reeleição do presidente, dos governadores e prefeitos, e o fato de o governo haver vetado a criação de uma CPI para investigar tal assunto, além do arquivamento dos inquéritos sobre irregularidades administrativas no País, que foram mandados fazer por seu antecessor.
As manifestações foram uma pequena amostra do que o presidente da República, pelo fato não se afastar do cargo, encontrará, País afora, durante sua campanha eleitoral. Será complicada a situação de FHC, um presidente candidato à Presidência, que se considera responsável pelo êxito do Plano Real, mas também terá de assumir, perante os eleitores, o ônus da falta de empregos, do caso dos votos no Congresso, das privatizações a preços que não cobrem sequer os juros da dívida brasileira, da eliminação de direitos dos trabalhadores e aposentados etc.
O que não falta, como acontece a todos os governos, é munição para a campanha de seus adversários, no pleito de outubro. Pode-se dizer, no entanto, que as manifestações de agora talvez tenham passado mais ou menos despercebidas, porque vieram em hora imprópria: o povo se divertia ou tentava divertir-se nas ruas, durante o Carnaval, e não queria lembrar-se de suas mazelas, mas esquecê-las. O tempo dos protestos, portanto, não era esse.
Como diz o Eclesiastes, há tempo para tudo. Tempo de chorar, e tempo de rir. Tempo de se afligir, e de saltar de gosto. Tempo de falar, e de calar. Tempo de amor, e de ódio. Tempo de guerra, e de paz.
O tempo certo para os protestos ou aplausos políticos é o das eleições. E 4 de outubro será o dia do julgamento dos feitos positivos e negativos do governo FHC e de seus aliados. E da procedência, ou não, das críticas de seus adversários, bem assim das propostas que eles trazem para o eleitorado. Vai-se, então, ver se o Plano Real, por si só, basta para enfrentar os que prometem preservá-lo, como o ex-presidente Itamar Franco (se o PMDB aprovar sua candidatura), mas com ressalvas fortes: Com o Real, mas sem desemprego ou Honestidade sim, impunidade não. Sem falar das críticas e compromissos que Lula-Brizola, Ciro Gomes, e o dr.Enéas, com certeza, estão aprontando.





