O presidente Fernando Henrique Cardoso aproveitou o carnaval para recuperar-se, num sítio que possui no interior de São Paulo, das canseiras e dos problemas resultantes do início de sua campanha reeleitoral no Nordeste. Além de haver inaugurado, segundo a imprensa, obras não-concluídas, FHC foi advertido pelo ministro Ilmar Galvão, do Supremo Tribunal Federal, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, sobre a hipótese de estar usando os bens públicos, inadvertidamente, numa campanha eleitoral feita fora de prazo.
Na volta a Brasília, FHC teve mais dois contratempos. Soube que o PT resolvera filmar suas viagens aos estados e gravar todos os discursos que fizer em tais ocasiões. Ironicamente, ele ofereceu aos petistas os serviços de televisão e filmagem da Radiobrás. Além disso, embora negasse estar em campanha, o presidente recebeu, em palácio, o senador Ronaldo Cunha Lima, do PMDB da Paraíba. Em meio ao irrepreensível serviço da mordomia palaciana, FHC pediu-lhe o apoio pessoal, na convenção que o PMDB fará em 8 de março, para definir se lança ou não candidato próprio à presidência. Não pediu que o PMDB não tivesse candidatos a governador e ao Congresso, mas apenas à sua própria sucessão.
As duas propostas do presidente foram rejeitadas. O PT talvez tenha vislumbrado, no que lhe pareceu malícia da oferta presidencial, o risco de cometer precisamente o que o ministro Ilmar Galvão quer impedir que FHC cometa. O senador Cunha Lima, homem de partido e de palavra, improvisador e conhecedor dos tradicionais desafios dos grandes cantadores do Nordeste, disse não ao presidente, mas em termos educados. Deixou mais ou menos claro que não agiria com a irresponsabilidade que FHC, há dias, disse caracterizar o comportamento dos líderes nordestinos. Em resumo, seu nome jamais seria cantado nas feiras da Paraíba como exemplo de traição política.
Mas, estava escrito: o repouso presidencial não acabaria bem. No primeiro dia de carnaval, FHC tomou conhecimento das reclamações do governador de São Paulo, Mário Covas, contra medida econômica do ministro Antônio Kandir, do Planejamento, que fez a receita estadual perder, em 1997, mais de R$ 1 bilhão. Já o ministro da Justiça, Iris Rezende, não repassou a São Paulo recursos para a construção de penitenciárias. De resto, as empresas paulistas, como as de todo o país, estão em dificuldades, pois não têm como investir, para sair da crise, devido à política de juros altos. No estado, o índice de desemprego já é o maior de sua história, desde a proclamação da República.
O presidente FHC - que pretendia aproveitar o retiro em Ibiúna para o descanso - deve sentir-se como o personagem do samba, que ‘‘tirava o domingo para descansar, mas não descansou, pois seu time perdera’’. No caso, pior do que a má sorte do sambista, os perdedores - enquanto FHC descansava - eram o próprio presidente e o time do governo, com os gols que estavam sofrendo, quase no final do tempo regulamentar do jogo da reeleição presidencial.

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