Quem acompanha o dia-a-dia da política brasileira está confuso e decepcionado com o desencontro entre o que fazem e o que falam - ou que a imprensa conta que falam e fazem - importantes homens públicos do país, neste ano de eleições gerais, as primeiras em que os governantes têm direito à reeleição.
O presidente Fernando Henrique Cardoso diz aos jornalistas que ainda não está pensando em reeleição e que se dedica apenas a tratar das questões de interesse do povo e do Brasil. Mas a imprensa fala de seus encontros com políticos do PMDB, aos quais - informa-se -pede que apóiem sua candidatura, na convenção em que os peemedebistas tendem a lançar candidato próprio à sucessão presidencial. A intervenção do chefe do governo em assuntos internos do PMDB - fato jamais ocorrido em tal escala, no Brasil - é vista com naturalidade, pois a legislação brasileira é omissa nesse particular. A única sanção a que se expõe FHC é de natureza ética, mas pelo fato de que seus atos, ao se oporem às suas palavras, abalam a credibilidade no presidente.
Talvez por influência do comportamento ambíguo do presidente, a imprensa também não confia muito em outros políticos brasileiros. O ex-presidente Itamar Franco afirma e reafirma que vai comparecer à convenção do PMDB, em 8 de março próximo, para batalhar pela candidatura própria do partido à presidência. Depois, garante que tentará ser indicado candidato à sucessão de FHC. Mas se diz, sistematicamente, que Itamar está blefando e não entrará na disputa sucessória.
O governador Mário Covas, de São Paulo, é outra vítima da incredulidade jornalística de nossa imprensa em relação aos políticos. Ele insiste em que não será candidato à reeleição ao governo estadual, em outubro, contra a candidatura Paulo Maluf, mas, para os jornalistas, seus desmentidos é que são mentirosos.
O que está acontecendo? Os políticos fazem apenas um jogo de mentiras ou a imprensa, no Brasil, adotou a linha do ceticismo completo, no tocante à política?
Em recente encontro com jornalistas do semanário americano ‘‘The Nation’’, o filósofo Jurgen Habermas - crítico implacável das sociedades industriais modernas, que admitem qualquer tipo de ação para atingir determinados fins - lamentou que a imprensa, com seu ceticismo, estivesse levando o povo à alienação e ao desengajamento político. Queira-se ou não, a política - assinalou ele - é uma forma de realizar o bem comum, de acordo com a vontade soberana do povo. A desmoralização dessa instância, pelo jornalismo de descrenças e desconfianças, elimina, portanto, possibilidades democráticas de solução pacífica de conflitos nas sociedades modernas. Habermas deixou claro que tal prática abre caminho para a dominação da tecnocracia sem entradas nem preocupações sociais ou estimula o surgimento do salvacionismo político de líderes que se julgam acima do bem e do mal. A ser correta a visão do filósofo, é possível que os dois fenômenos se juntem, entre nós, se já não se juntaram, ajudados pelo ceticismo jornalístico, ante nossas reais mistificações políticas.

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