Uma generalização impensável e politicamente incorreta, com a qual não contavam os mais otimistas adversários do governo, pode criar dificuldades para o projeto de reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, na região que era considerada, até agora, seu maior território de caça de votos: o Nordeste.
O episódio inesperado aconteceu em Alagoas. FHC deixou-se entusiasmar pelas palmas dos correligionários, ao falar sobre os desequilíbrios regionais e as necessidades dos nordestinos. Como tem acontecido com frequência, o presidente soltou a imaginação e perdeu o controle sobre as idéias. Desancou, então, os dirigentes nordestinos, que são, hoje, entre os aliados do governo, seus principais sustentáculos no Congresso.
Ao afirmar, empolgado, que, além da água para beber a da atenção básica ao povo, falta, no Nordeste, ‘‘vergonha no cara de seus dirigentes’’, FHC atingiu líderes de todos os tipos, mas principalmente os aliados do PFL e de outros partidos que mandam na região e - salvo no caso de Pernambuco - apoiavam sua reeleição. Só a psicanálise explicará o ato falho do presidente. Talvez tenha falado mais alto, na ocasião, a voz do governante aprisionado nas malhas do PFL nordestino ou - quem sabe? - a do preconceito da gente do Sul, com o qual ela se exime de suas responsabilidades pela exploração política do Nordeste. Em suma, FHC esqueceu os grandes rombos no Tesouro, provocados por banqueiros, políticos e empresários sulinos, sem vergonha na cara, que seu governo já teve de socorrer. Só viu, mas como fenômeno generalizado, a sem-vergonhice nordestina.
FHC repetiu o erro tão inesquecível, a curto e médio prazo, quanto o de um de seus novos aliados, o ex-prefeito Paulo Maluf, que propôs aos estupradores o estupro sem a morte das vítimas. O presidente vai cansar-se de explicar o que falou sobre a sem-vergonhice dos dirigentes do Nordeste. Mas o estrago feito por suas palavras não ficou só nos limites da coligação reeleitoral formada pelo PFL, PSDB, PPB e PTB.
Os governantes do PMDB nordestino, incluídos geograficamente no rol dos dirigentes sem vergonha - não deverão sentir-se à vontade para continuarem apoiando a reeleição de FHC. Afinal, no Nordeste, o PMDB tem 123 convencionais com direito a 177 do total de 698 votos da convenção que decidirá, em 8 de março próximo, se o partido apóia, ou não, a candidatura própria a presidente da República. Dos convencionais da região, 22 são deputados federais, três governadores e quatro senadores. A maioria era favorável à reeleição de FHC.
Alguns mudarão de idéia, mas a incógnita da equação sucessória são os 94 delegados do PMDB, políticos que vivem na região, conhecem suas mazelas, não recebem favores do governo ou do fisiologismo praticado em Brasília. Quase todos se queixam da corrupção dos órgãos federais ali existentes e falam mal do DNER. Pois esses delegados à convenção do PMDB são os nordestinos mais indignados com as considerações do improviso de FHC, sobre a falta de vergonha dos dirigentes do Nordeste. Será difícil segurá-los na convenção.

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