O PMDB atravessou o Rubicão, e a sorte política do partido está lançada, tanto quanto a do próprio presidente Fernando Henrique Cardoso, nas eleições de outubro. O ex-presidente Itamar Franco, ao contrário dos rumores e intrigas que pretendiam torná-lo candidato a governador de Minas ou fazê-lo embaixador em Roma, aceitou ser candidato à Presidência da República, pelo PMDB.
Políticos experimentados, como o líder peemedebista no Senado, Jáder Barbalho, duvidavam que Itamar ou o senador José Sarney quisessem disputar a sucessão de FHC. Por sinal, Jáder esclareceu a este repórter que não exigira nenhuma carta, mas um simples documento em que eles manifestassem a intenção de se candidatarem. Os dois entenderam, como o repórter, qual fora a exigência de Jáder. Itamar, na carta ao líder, reafirma que é candidato; Sarney não sai do páreo sucessório, mas, como não quer disputar a convenção contra Itamar, apóia, em sua correspondência, a candidatura do ex-senador mineiro.
Menos de uma hora depois do gesto de Itamar, sabia-se, em Brasília, que o teor de sua carta já era conhecido no Exterior e despertava o interesse de autoridades de diversos países, além do FMI. Em função da importância da economia brasileira - de acordo com informações correntes -, todos queriam saber dos rumos que Itamar dará à economia nacional, se for eleito, mais uma vez, presidente da República. É improvável que ele faça um governo diferente do que fez quando assumiu a Presidência após o impeachment de Collor.
A disposição de Itamar é corrigir os desvios do Plano Real, responsáveis pelo aumento do desemprego e pelo abandono de prioridades em setores como o da saúde, educação e tecnologia. Ao que se sabe, ele não pensa em rever a política de privatizações, mas deve executá-la com maiores cuidados e sem pressa. Não aceitará, no entanto, que as já efetuadas se ponham acima dos interesses nacionais ou funcionem como enclaves dentro do território brasileiro.
Amigos do pré-candidato do PMDB têm confiança em que, consolidada a sua candidatura, o partido marchará praticamente sem dissidências para as eleições de outubro. A perspectiva é de que o PMDB deixe de ser reboque da aliança parlamentar governista, exercendo, a partir de agora, um apoio crítico ao presidente FHC, no que isso não contrariar as diretrizes de seus compromissos programáticos. Os tempos de submissão do partido às conveniências pessoais do presidente ou aos interesses fisiológicos da aliança político-eleitoral governista deverão estar superados a curto prazo.
Uma avaliação cuidadosa do quadro eleitoral nos Estados conclui que será difícil aos candidatos do PMDB formarem dissidências locais, na esperança de que, assim, possam conquistar as migalhas de votos do eleitorado do PFL e do PSDB, dois partidos pró-FHC. A união em torno de uma candidatura politicamente densa, como a de Itamar, com reais chances de vitória, habilitará os peemedebistas à conquista dos votos dos milhões de simpatizantes do PMDB e dos eleitores independentes. Vai-se ver se isso é possível, em outubro.

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