Rubem Azevedo Lima
Se tiver a candidatura à presidência confirmada pelo PMDB, o ex-presidente Itamar Franco, primeiro executor do Plano Real, pode vir a constituir-se um sério obstáculo à reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso e ser o seu maior adversário nas urnas de outubro. Motivo: ele e FHC dividem, entre si, os êxitos do real. Mas os problemas que o plano começa a enfrentar são debitados apenas na conta política do atual presidente.
Excluída a relativa estabilidade monetária, o que não falta são questionamentos em vários aspectos da execução do plano real, no governo FHC. Um deles, de forte impacto junto à opinião pública, é a diferença entre ambos, quanto à questão de parentes em postos-chave, nas estatais privatizadas ou em órgãos que as fiscalizam. Nenhum familiar do ex-presidente foi nomeado ou aceitou emprego nas estatais que Itamar privatizou. O genro de FHC, David Zylbersztajn, foi nomeado pelo presidente para dirigir a Agência Nacional do Petróleo.
Uma das privatizações do atual governo, a da Light - vendida à Eletricité de France - atinge o próprio FHC, pois seus serviços caíram de qualidade e são alvo de reclamações de quase toda a população do Rio, embora a empresa tivesse aumentando as tarifas acima da inflação. Adquirida com financiamento do Banco Central, utilizando recursos do Fundo de Assistência ao Trabalhador, a Light já remeteu lucros para a matriz, na França, ajudando, pois, a criar empregos naquele país, enquanto no Brasil milhões de trabalhadores estão desempregados.
A comparação desse caso com as privatizações de Itamar desfavorece politicamente FHC. O ex-presidente pode alegar que privatizou com mais critério que seu sucessor. Embora algumas de suas medidas privatizadoras também não agradassem às esquerdas, Itamar não privatizou estatais estratégicas, como a Vale e a Petrobrás, o que lhe dá outra vantagem adicional sobre o possível adversário.
De resto, o estilo administrativo de Itamar, ao jeito dos hábitos de Minas, não aceitaria, em seu ministério, a existência de alguém que se sobrepusesse à sua autoridade, como faz o ministro Sérgio Motta. Quando seu amigo particular, o ex-ministro Hargreaves, teve o nome envolvido em supostas irregularidades, nos Correios, Itamar o afastou do cargo, até que ficasse esclarecida sua situação.
Dúvidas foram levantadas sobre outro de seus ministros, Eliseu Rezende. O ex-presidente, que apreciava as qualidades de administrador do auxiliar, aceitou seu pedido de exoneração. Seria impensável que Itamar, com longa experiência no Senado, mantivesse em seu ministério alguém como o atual titular dos Transportes de FHC, deputado Eliseu Padilha, contra quem existe, na Câmara, pedido para processo judicial, sob a acusação de crime contra a ordem tributária. Pode tratar-se de coisa armada e o ministro talvez seja inocente, mas Itamar repetiria o que fez com Hargreaves. A seu ver, no trato dos interesses públicos, não basta que um governo seja sério. Como a mulher de César, ele tem de parecer que o é de fato e está acima de qualquer suspeita.





