Os indicadores econômicos e sociais mostram que o Brasil dança cada vez mais perto da beira de um abismo. Não se trata, infelizmente, de figura de retórica, mas do retrato de uma realidade inexorável e assustadora.
As pesquisas mostram que dois em cada três brasileiros sentem pânico ante a hipótese de perder o emprego. O número de desempregados - sem contar os subempregados - chega a dez milhões de pessoas, na faixa das economicamente ativas. A maior parte não trabalha há mais de dois anos. Os empregadores em potencial, nos setores da agricultura e da indústria, reclamam da falta de políticas agrícola e industrial e do elevado custo de recursos para investimentos, devido à política de juros altos. Faltam escolas. O sistema de saúde está arrasado. O descalabro das estatais privatizadas desmoraliza a política de privatizações, até então julgada panacéia para todos os males do País. O Brasil se desfez de ativos construídos com sacrifício, durante muitos anos. Se vender o que ainda possui obterá, no máximo, R$ 32 bilhões, quantia inferior aos juros das dívidas do país, pagos em 1997. Nos três últimos anos, a mais importante região do mundo, em termos de biodiversidade, a Amazônia, teve 13% de seu território devastado irrremediavelmente, exibindo hoje as cicatrizes de um solo arenoso, impróprio para a agricultura. A perda de tais riquezas, com a destruição da flora e da fauna - sem que nada se fizesse para impedi-la - reduziu as possibilidades de desenvolvimento da biotecnologia nacional.
A euforia do consumismo, no final de 1997, começa a dar frutos ruins: em São Paulo, o número de cheques sem fundos, no comércio, passa de 300 mil, um aumento de mais de 100% em relação a dezembro de 1996. O governo previa, para janeiro último, queda no déficit do comércio exterior. Mas, ao contrário disso, o déficit foi bem maior do que o de janeiro do ano passado. São os números da realidade. Todos, e outros não citados, igualmente preocupantes, estão nos jornais de ontem.
Alguma coisa está errada com o Brasil. O governo insiste na tecla da estabilidade monetária e os economistas dizem que o real está supervalorizado, mas não se reajusta - alegam - para que não se mate a sensação de inflação baixa.
E o que se vê na política, diante de situação social e econômica tão difícil? Ao invés de buscar criar alternativa ao esvaziamento de prestígio de FHC - já registrado em pesquisas insuspeitas - os sofistas do continuísmo, quase todos peemedebistas, constróem uma teoria da derrota inevitável de quem quer que seja - afora o adversário ideal, do PT - o candidato que o PMDB lance contra o presidente. Pratica-se o que o presidenciável Ciro Gomes, do PPS, chama de ‘‘a chantagem do real’’: ou se reelege FHC ou o país quebra. ‘‘Em geral, poucas opções políticas são oferecidas aos cidadãos. Basta uma ruim - segundo Jules Monnerot (intelligence de la politique) - para os mistificadores fazerem a chantagem do pior’’. Ou seja: se tal candidato perder, virá o caos. E se nada mudar, não é o que pode vir?

mockup