Rubem Azevedo Lima
Por maiores que sejam as cautelas com que os preparem os melhores atores da política, os fatos políticos costumam ser tão fluídos e ter tanta mobilidade que, com frequência, geram resultados opostos aos imaginados, antes de ser postos em prática. Noutras palavras, a ação projetada não se consuma de acordo com as intenções dos que a projetaram. O presidente Fernando Henrique Cardoso, sociólogo mais do que político, não ignora esse fenômeno, conhecido por uma palavra de origem grega, a heterotelia, ou seja: a chegada a um fim que não era o previsto.
Vejam-se dois exemplos. Primeiro, nos Estados Unidos: de acordo com Hillary Clinton, mulher do presidente Bill Clinton, as acusações de assédio sexual, feitas ao marido, seriam manobras da direita política americana para derrubar o chefe do governo e impedir, assim, a execução de seus programas sociais, em favor das populações de baixa renda. Talvez não existisse manobra alguma com esse objetivo, nas primeiras e difusas denúncias sobre Clinton, mas Hillary e o marido conseguiram convencer a opinião pública do contrário e a jogaram contra os denunciantes e os que imaginaram beneficiar-se politicamente do episódio, na hipótese de comprovação dos atos de assédio sexual do presidente.
Outro exemplo, este no Brasil: o governo FHC era o maior interessado em impedir que o PMDB tivesse candidato próprio à presidência da República. Os ministros e líderes peemedebistas no Congresso defendiam e defendem ainda a obstrução a tal candidatura, contra o pensamento do presidente do partido, deputado Paes de Andrade, e de outras lideranças identificadas com as bases do PMDB. O governo fez farta distribuição de favores orçamentários a seus aliados nesse partido, cuja executiva nacional foi palco de um desafio do senador Jáder Barbalho, líder peemedebista no Senado, até então defensor do apoio partidário à candidatura FHC. Se os ex-presidentes da República Itamar Franco e José Sarney, do PMDB, escreverem carta oficializando suas candidaturas presidenciais - desafiou Jáder -, ele também muda de posição e passa a defender a tese do candidato próprio do partido. Itamar aceitou o desafio e ficou de enviar ao PMDB a demonstração exigida por Jáder.
Se o objetivo do lider era mostrar, como parecia, que os ex-presidentes blefavam ao falar em concorrer à Presidência (Itamar revelou que Sarney também formalizará sua candidatura), o tiro saiu pela culatra. Os resultados da manobra foram, pois, contrários aos esperados. Mas o próprio FHC, em entrevista à imprensa, fez irônico desafio político a Itamar, talvez confiante no êxito do jogo de criar obstáculos ao lançamento de qualquer candidato peemedebista: ele quer candidatar-se? O problema dele será convencer o PMDB a lançar sua candidatura!
Foi um desafio ousado, em assunto que o voto secreto dos convencionais do PMDB resolverá. Ou FHC, em sua autoconfiança, esqueceu as lições de sociologia ou acha tal aprendizado secundário diante do que lhe ensinaram as virtudes e os vícios da política brasileira. Podem perder-se o sociólogo e sua sonhada reeleição.





