Rubem Azevedo Lima

A síndrome
do ano 2000
O segundo milênio acaba dentro de cem semanas. Faltam, pois, só 700 dias para iniciar-se o terceiro. A expectativa em torno desse acontecimento vem perturbando muita gente, causando explosões de fanatismo e condutas inusitadas de governantes, intelectuais, empresários e cidadãos comuns. Não se trata da opinião do repórter, mas de psicólogos europeus e americanos. Quem não se lembra do caso de uma seita, nos Estados Unidos, em 1997, que oferecia o paraíso a quem quisesse escapar aos ‘‘horrores’’ do ano 2000, para renascer depois de tudo normalizado? Uma nave extraterrestre levaria provisoriamente os interessados ao paraíso. Pois 39 respeitáveis chefes de família, de várias profissões, gostaram da idéia e concordaram em matar-se, com esposas e filhos, tomando cicuta. Os suicidas foram achados com passaportes no peito, para entrarem e saírem do paraíso.
Fatos iguais vêm ocorrendo com frequência e as autoridades temem que eles se amiúdem ainda mais, à medida que o tempo vá passando e o ano 2000 se aproxime. Afinal, 87% dos americanos desejam ir para o paraíso, 49% acreditam em OVNIs e 200 mil dizem já ter viajado neles. A soma de tais fatores, mais a falta de esperança no futuro e a ênfase que a imprensa dos EUA deu às previsões pessimistas para o ano 2000, criaram a síndrome do terceiro milênio.
Ao globalizar-se, a síndrome ganhou amplitude. Diz-se até que ela está na raiz da loucura das bolsas, no aumento da violência urbana e na obsessão dos governantes em se reelegerem, para enfrentar os desafios do ano 2000. Fujimori obteve do Congresso o direito de reeleger-se e reelegeu-se. Na condição de exterminador de guerrilheiros, deve conseguir mais uma reeleição. A Indonésia quebrou e pediu moratória, mas o ditador Suharto, que matou 300 mil timorenses, exigiu um nono mandato. FHC emplacou a emenda reeleitoral e disse na Suíça que não admite a hipótese de não se reeleger até 2002. Pouco importa que sob seu governo tenham acontecido coisas que não estão à altura do passado político, da cultura, da inteligência e das tradições éticas do presidente.
Citemos duas dessas coisas. O ministro das Comunicações, Sérgio Motta, falou o que sabia que não devia falar sobre os lucros da Telebrás. Com isso, milhares de investidores perderam suas economias e outros, em número menor, ficaram mais ricos, no jogo de soma zero que é a bolsa. Perdoará FHC mais essa estranha incontinência verbal do ministro, que nem uma advertência mereceu?
Estranhável, também, é o pensamento do ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, sobre discriminação política na distribuição de verbas do orçamento. A seu ver, é normal que o governo privilegie os parlamentares que o apóiam. É? O código eleitoral acha que não. Pensava-se que o governo, ao distribuí-las, consultasse os interesses do povo, em todo o País, e não só os dos eleitores das regiões em que os aliados de FHC fazem política. Mas não. O Brasil adquiriu a síndrome incurável do ano 2000 e não ficou bom da doença da politiquice de todos os tempos.
O jornalista Ruy Fabiano está de férias.

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