Rubem Azevedo Lima
Foi mais uma batalha-de-Itararé na política brasileira. É a expressão que se usa para o combate anunciado e esperado, mas que não se realiza. Na revolução de 30, a vitória estava ainda indefinida, entre os legalistas do governo e os revoltosos de Vargas. Dizia-se que os governistas estavam reunindo forças na cidade paulista de Itararé, para arrasar os revoltosos. Houve movimento de tropas, de lado a lado, mas a batalha simplesmente não aconteceu, pois os legalistas não a travaram.
A reunião de adesistas e antiadesistas do PMDB, na Comissão executiva do partido, era considerada encontro de alto risco, tamanha é a animosidade entre as duas facções. A reunião durou, no entanto, menos de 15 minutos, e as partes em conflito fizeram acordo julgado razoável por ambos os lados, sem o esperado combate.
Para entender quem perdeu ou ganhou, convém explicar o que os dois lados esperavam da reunião. Os antiadesistas haviam organizado uma pauta para a convenção que convocaram e estava marcada para 8 de março próximo, pelo deputado Paes de Andrade, presidente do PMDB e antiadesista. Os adesistas tinham aprovado, em reunião do Conselho Político, no qual são majoritários, recomendação para fazer constarem dois temas na pauta da primeira convenção que o PMDB realizar (a convocada por Paes): em primeiro lugar, a deposição do presidente do PMDB; em segundo lugar, a ratificação da proposta do Conselho, de apoio do partido à candidatura Fernando Henrique Cardoso. Os antiadesistas, na pauta da convenção que convocaram para março, fixaram apenas um tema: resolver se o partido vai, ou não, lançar candidato próprio à Presidência da República. O que resolveram as partes desavindas? A convenção de março terá dois itens: o primeiro é a questão da candidatura própria (como queriam os antiadesistas); o segundo, a discussão de recurso do antiadesista Marcelo Barbieri contra a proposta do conselho político adesista, de tirar Paes do comando PMDB. Portanto, os adesistas não conseguiram ratificar o apoio à candidatura FHC e só vão debater se Paes fica ou sai da presidência, após os debates sobre a candidatura própria.
Para uns e outros, a vitória - no caso da candidatura do PMDB - é apenas psicológica. Na verdade, por lei, a indicação de FHC, pelo adesistas, ou de Itamar, Sarney ou Requião, pelos antiadesistas, só se resolverá mesmo na convenção de junho, em que, por lei, se homologam, oficilmente, as chapas de candidatos dos partidos à Presidência da República. FHC, que afastara, na Suíça, a hipótese de derrota nas eleições de outubro próximo, levava de barbada o apoio do PMDB à sua candidatura. Ele deve cuidar-se, pois, para não repetir o que lhe aconteceu no pleito à Prefeitura de São Paulo: ocupou a cadeira de prefeito antes do tempo e acabou derrotado. Já o PMDB antiadesista obteve sua primeira vitória importante, desde a derrota sofrida na reunião a que não compareceu, do conselho político adesista. E foi vitória alcançada numa batalha que não houve, em termos de conflito, mas de conversas, o verdadeiro território da política.
O jornalista Ruy Fabiano está de férias





