Rubem Azevedo Lima

O horizonte
das eleições
As aventuras e desventuras amorosas do presidente Clinton criaram, nos últimos dias, no mundo inteiro, a maior coleção, de todos os tempos, de charges e piadas frascárias sobre o mesmo personagem. O governante mais poderoso da Terra passou a ter a atividade sexual como característica maior de que a gestão de problemas políticos, econômicos e sociais dos Estados Unidos. Descobrir o lado picaresco do homem que controla os botões de disparo dos mísseis nucleares, nos EUA, fez as pessoas esquecerem os namoros e a morte da princesa Diana.
Em todo o mundo a imprensa rebuscou a história sexual dos governantes, ajudando a manter o ‘‘voyeurismo’’ em torno de assunto que sempre atrai a atenção do público. No Brasil, raros estudantes de nível médio ignoram a vida amorosa, extraconjugal, do imperador Pedro I e suas amantes. Êxitos de livraria, entre nós, foram as memórias de Getúlio Vargas, com o relato de uma paixão proibida, e os queixumes de amor saudoso, na biografia não autorizada de Juscelino. No caderno Dois, do CB, Rogério Menezes produz texto instigante sobre o lançamento, em português, do livro Dois mil anos de alcova, da francesa Claude Pasteur.
Que tem isso a ver com a política brasileira? Somos o país em que a suposta pressão de um candidato presidencial para que a namorada fizesse um aborto -sequer consumado -, foi explorado com êxito nas eleições. Outras lamentáveis intromissões talvez devassem, a partir de agora, a privacidade dos candidatos nos pleitos, seja explicitamente ou por meio de intrigas e boatos. Mas o problema não é esse. Embora ajudado pela mulher - que acusa a direita americana de tramar o complô sexual para derrubá-lo - Clinton corre o risco de impeachment. Ainda que tal não ocorra, após o processo em que o acusam de obstruir a Justiça, os EUA terão momentos de tensão, com repercussão mundial, devido à hegemonia política, econômica e militar do país. E isso está em xeque, face à denuncia do suposto golpe, feita por Hillary Clinton. É natural, pois, uma retração cautelosa de investimentos americanos, tanto mais que a Indonésia, apesar de socorrida pelo FMI, declarou-se agora em moratória.
Nossa revolução de 1930 se deu no bojo de uma crise econômica mundial, menos grave do que a de hoje, mas com efeitos devastadores sobre o nível de emprego, fenômeno esse que só foi notado em nossa economia, então essencialmente agrícola, com a quebra nas exportações do café. O republicano Hoover, no EUA, após o estouro das bolsas, em 1929, não superara a depressão econômica e enfrentava dificuldades externas, mas tentou reeleger-se em 1932. Foi derrotado pelo democrata Rooselvelt.
O Brasil, afora os problemas externos, tem baixa inflação, mas o maior desemprego de sua história. Esse caldo de cultura faz do narcotráfico, na prática, a única atividade econômica viável para os excluídos, e gera mais violência. Novo fator de inquietação interna é a discriminação salarial entre civis e militares e da magistratura - o STF à frente -, aprovada agora pela maioria governista no Senado. O horizonte é sombrio e o País têm motivos para preocupar-se, nesse ano eleitoral.
O jornalista Ruy Fabiano está de férias.

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