Rubem Azevedo Lima

A realidade
e o erro
Em sua visita a Cuba, o papa João Paulo II criticou a falta de liberdade no país e concitou o governo Castro a anistiar os dissidentes do regime, a soltar presos políticos e a promover a boa convivência entre os cubanos. Mas ele reconheceu os esforços de Cuba para dar saúde e educação ao povo, apesar do embargo econômico dos Estados Unidos, há quase quatro décadas.
O leitor inteirou-se desses fatos, com imagens e análises da multidão de jornalistas de vários países, que acompanharam a visita do papa. Só os recordamos, em resumo, para confrontá-los com o paralelo que João Paulo fez entre Cuba e o resto do mundo, ou seja, entre o socialismo sem democracia e o capitalismo do neoliberalismo, aquele julgado hoje um regime jurássico e este, a maravilha político-econômica definitiva, no mundo moderno.
Esta não é, porém - apesar do entusiasmo neoliberal de muitos brasileiros - a visão do papa. As palavras mais duras de João Paulo foram para o neoliberalismo dos países ricos e outros nem tanto, que se ‘‘entregam às forças cegas do mercado, humilhando o homem, enriquecendo os ricos e empobrecendo os pobres’’. Mais por opção de seus governantes do que pela vontade majoritária dos governados, o Brasil pertence ao grupo dos neoliberais. Ressalve-se a circunstância de que, nessa maioria, apesar das dificuldades que enfrentam, poucos brasileiros admitem voltar a um regime sem liberdade, embora, aqui e ali, existam até simpatizantes de Hitler.
O que é o nosso neoliberalismo, que mostra agora sua face ao mundo, pela Cable News Network, de Ted Turner, com entrevistas de ardorosos defensores, os dois Fernandos? A primeira, já conhecida, de FHC - a quem os aliados chamam de Magnus - e a segunda, com Collor, tido, hoje, até por ex-aliados, como Exiguus. O poder faz o governante parecer grande; o ostracismo, pequeno. É a nossa política.
Na versão FHC, tudo vai bem ou está melhorando, por influência do Plano Real, que mantém a inflação em baixa, ainda que em artigos de produção industrial estrangeira - produtos farmacêuticos, por exemplo - os preços não parem de subir. Mas os índices de desemprego e de subemprego também sobem; os trabalhadores continuam a perder direitos; há crianças abandonadas país afora; exploração do trabalho infantil; menores são ‘‘aviõezinhos’’ no tráfico de drogas. Persiste a violência urbana e no campo.
Cresce a devastação da Amazônia. Somos um grande cassino teletrônico. Faltam escolas e verbas para ciência, saúde e tecnologia. Sobram fisiologia política e nepotismo. Quanto a ricos e pobres, confirmamos a equação de João Paulo II. Eis o retrato do nosso neoliberalismo. O presidente coloriu a foto, mas, num ponto, mostrou estar fora da realidade. Admitiu que o Uruguai pode vir a ser nosso adversário na final da Copa de futebol, na França. Mas o Uruguai foi eliminado e não está na Copa. Em jornalismo, tais erros são desqualificantes. No caso de fatos políticos, a menor incorreção abala sempre a confiança nos alicerces das mais sólidas construções da retórica subjetiva.
O jornalista Ruy Fabiano está de férias.

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