Rubem Azevedo Lima
Não obstante o seu potencial eleitoral, já aferido em pesquisas, o senador José Sarney (PMDB-AP) tem escassíssimas chances de vir a candidatar-se à presidência da República. São muitos os fatores que conspiram contra essa hipótese, a começar pela determinação da ala governista do PMDB, predominante no partido, de atrelar-se à reeleição de Fernando Henrique.
Sarney, amigo de Paes de Andrade, que preside o PMDB e quer que o partido apresente candidatura própria à sucessão, não está interessado em comprar briga dentro de casa. Só admitiria candidatar-se se houvesse consenso em torno de seu nome. Não há.
Foi cogitado pela ala governista para substituir Paes na presidência do Partido, mas não quer. Nada de brigas ou gestos heróicos. Sarney está cada vez mais preocupado consigo mesmo. Seu mandato extingue-se agora. Terá que renová-lo nas eleições de outubro. Se, como o senador Roberto Requião, dispusesse de mais quatro anos, não teria dúvida em enfrentar Fernando Henrique e portar-se como franco-atirador, quando nada para firmar liderança nacional.
Nas atuais circunstâncias, porém, Sarney sabe que uma eventual candidatura sua à presidência teria remotas chances de triunfo. Poderia até impor um segundo turno e torná-lo um eleitor qualificado, mas não lhe garantiria mandato e tribuna permanente. E ele não pretende abdicar desses instrumentos de ação política, que lhe garantem condições seguras de defesa contra eventuais escaramuças de adversários e preservação de sua liderança, regional e nacional.
Em política, nem sempre mandato confere poder e influência, mas não tê-lo quase sempre é sinônimo de exclusão - e Sarney não tem planos de aposentar-se tão cedo. Tem sido moderadamente crítico em relação a Fernando Henrique. O presidente não é nem seu aliado, nem seu adversário. É uma relação que deve ser mantida sob alguma tensão, de modo a torná-la mais valiosa e eficaz.
Sarney, hoje, não trabalha apenas em causa própria. Leva em conta sobretudo o futuro de sua herdeira política, a governadora do Maranhão, Roseana Sarney, cujas relações com Fernando Henrique são consideradas boas.
Roseana chegou a ser cotada para compor a chapa da reeleição como candidata a vice-presidente. Foi um sonho que durou pouco, mas que chegou a ser acalentado. Ela hoje pleiteia novo mandato de governadora e não há sinais de opositores em condições de barrá-la. O governo federal é seu aliado no Maranhão, que está na rota das obras do Brasil em Ação, que servirão de fachada para a campanha reeletiva de Fernando Henrique.
Sarney é político pragmático. Segue à risca a máxima de Tancredo Neves segundo a qual se faz política com o fígado. Vai buscar mais um mandato de senador pelo Amapá e, com oito anos pela frente, continuará sendo peça influente no processo político.





