Um antigo ditado chinês diz que, entre as coisas que jamais voltam atrás, estão flecha disparada e palavra proferida. A flecha pode até ser, mas a palavra, ao menos na política brasileira, nem tanto. É bem, ao contrário, das coisas que mais voltam atrás - e sem a mais remota cerimônia.
O governador de São Paulo, Mário Covas, por exemplo, prepara-se para desdizer o que, há cerca de três meses, afirmou com a maior veemência e indignação: que não mais seria candidato ao governo de São Paulo. É e, a rigor, jamais deixou de ser.
Irritou-se apenas com a aproximação entre o presidente Fernando Henrique e o ex-governador Paulo Maluf, que por duas vezes jantaram juntos no Palácio da Alvorada. Covas, que queria o presidente hostilizando Maluf e apoiando sua candidatura à reeleição, não se conformou. Juntou esse ressentimento a dois outros fatores - a supressão de verbas de ICMS imposta pela Lei Kandir e sua baixa cotação nas pesquisas de opinião pública - e anunciou solenemente que estava fora da sucessão estadual. Foi o suficiente para pôr em polvorosa o PSDB e induzí-lo a pressionar o presidente da República.
A palavra proferida, no caso, teve o sentido claro de assustar e não de tornar-se irreversível. Covas jamais deixou de ser candidato. Manteve sua agenda de viagens pelo interior do estado - viagens de sentido puramente eleitoral para contatos com a base partidária - e continuou (continua) a incrementar seu programa de inaugurações de obras.
Eleição, cada vez mais, é sinônimo de inauguração de obras (quem diria que, mais de 60 anos depois, o dito de Washigton Luiz de que governar é abrir estradas seria resgatado com tamanha volúpia!). Covas sabe que Fernando Henrique, em função de seus compromissos políticos, não pode romper com Maluf. Quer, no entanto, reduzir ao máximo essa aproximação e torná-la crescentemente constrangedora. Daí a coreografia indignada. Política e dramaturgia têm muito em comum.
Aproxima-se, porém, o momento da campanha. É cada vez menos viável esconder intenções. E Covas começa, estrategicamente, a rever palavras proferidas. Esta semana disse, a propósito: ‘‘Não posso dizer que desta água não beberei’’. Não pode dizer mas já havia dito, o que, dentro das tradições do setor, é um mero detalhe.
O PSDB, em São Paulo, não tem alternativa eleitoral. Ou vai de Covas ou não vai. A hipótese José Serra é inviável. Sua recente derrota na eleição municipal o enfraqueceu perante a base do partido. Tem prestígio, mas não tem votos. Covas, em tese, possui ambos, muito embora as pesquisas o coloquem sistematicamente atrás de Paulo maluf.
A campanha, porém, não começou e os tucanos paulistas confiam em que o desgaste do prefeito Celso Pitta, afilhado político de Maluf, há de ser excelente ponto de partida para a reversão das expectativas. Enquanto isso, o vaivém das palavras prosseguirá.

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