O entusiasmo com que Lula estimula candidatura própria do PMDB está na razão direta de sua descrença nessa hipótese. A candidatura do senador Roberto Requião pelo PMDB seria, na avaliação de Lula, o centro de gravidade de uma frente eleitoral de centro-esquerda.
Requião, no entanto, parece entusiasmar mais o PT que o próprio PMDB. Na hipótese (problemática) de o partido lançar candidato próprio à sucessão, Requião teria ainda pela frente dois pré-candidatos de peso: José Sarney e Itamar Franco, sendo o primeiro o favorito.
Se não há sinais de candidatura peemedebista, claro está que os elogios do PT têm o sentido claro de atrair peemedebistas dissidentes para a candidatura Lula. O PT, apesar de todas as dificuldades (internas e externas), não desistiu de vir a liderar a frente oposicionista na eleição presidencial. Lula e José Dirceu continuam crendo numa candidatura única de oposição contra Fernando Henrique.
A chave do processo passou a ser - ou continua sendo - o PSB, de Miguel Arraes e Luíza Erundina. Arraes tem revelado insuspeitado apetite para negociações de bastidores. É o responsável pelo lançamento da candidatura Ciro Gomes, cuja rebeldia estimulou, fazendo-o crer que teria não apenas apoio, mas também legenda para candidatar-se. Nem uma coisa, nem outra. Quando Ciro se empolgou, Arraes retraiu-se, alegou dificuldades internas e não lhe cedeu espaço.
Ciro está no PPS, disposto a repetir a estratégia de Collor, que, a bordo do minúsculo PRN, arrebatou a Presidência da República em 1989, enfrentando sozinho os grandes nomes da política brasileira. Ciro abomina a comparação, mas a verdade é que, do ponto de vista estratégico, planeja repetir a epopéia. Tornou-se, por isso, fator de preocupação para os que, como Lula, defendem candidatura única da oposição.
Ciro não é absorvido pelo PT - e sem o PT não há hipótese de candidatura única. Como, no entanto, removê-lo? Ciro diz que também quer candidatura única, desde que, claro, seja a sua. Argumenta que Lula já teve suas oportunidades e, hoje, é carta fora do baralho. Não une nem a esquerda, quanto mais o centro. Para que haja a tal frente única, diz Ciro, é preciso que o eixo de gravidade esteja ao centro - ou seja, nele próprio, Ciro.
O PT acha que só Miguel Arraes, que inventou isso tudo, poderá desfazê-lo, zerando as negociações no campo oposicionista. O minúsculo PSB tornou-se assim a chave do enigma sucessório à esquerda. Enigma, a rigor, é a palavra que melhor define o comportamento do governador de Pernambuco em todo esse processo.
Ele simplesmente não abre o jogo. Sabe-se que não crê (pelo menos não cria) na eficácia da candidatura Lula. Chegou a crer na de Ciro Gomes, mas mudou rapidamente de idéia. Aparentemente, entusiasma-se mais com a hipótese de uma candidatura peemedebista - Itamar ou Sarney - mas sabe o quanto isso, pelo menos na perspectiva deste momento, é remoto. A bola continua com ele.

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