Rubem Azevedo Lima
Não há muitos verbetes com definições tão depreciativas, quanto política. Admite-se, vagamente, que tal atividade, embora malvista, seja importante para a democracia. Mas, ainda assim, os que a praticam formam, hoje, a categoria menos apreciada no País. Essa espécie de estigma atinge políticos sérios e corretos, poupando apenas da idéia geral de mediocridade e incorreção os que fazem a política espetáculo ou têm as boas graças dos meios de comunicação de massa.
A reação negativa à política não é nova nem existe só no Brasil. Devido às distorções e abusos políticos do século passado, Alexis de Tocqueville imaginou a hipótese de organizar a sociedade civil - expressões insinuadas por ele - para melhoria do comportamento político. A proposta era estabelecer equilíbrio entre os profissionais e os profanos da política. Várias organizações não-governamentais atuam, hoje, em muitos países, com esse objetivo e têm resultados promissores.
No Rio de Janeiro, organiza-se uma entidade suprapartidária, que se propõe a combater, por ora, certos aspectos do neoliberalismo político do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Seria o começo de um trabalho ainda informal, que estaria conscientizando cariocas e fluminenses, na luta em defesa de seus interesses. O mote político do movimento é o combate ao desemprego, julgado atualmente o fenômeno que mais preocupa os brasileiros.
Para reunir os assustados e sensibilizar os eleitores, em geral, quanto à ameaça de desemprego que paira sobre a cabeça de todos, o movimento adotou um slogan de conotação político-eleitoral explosiva: Nas eleições de 98, despeça FHC antes que ele despeça você.
O presidente Fernando Henrique talvez reclame do radicalismo do movimento, atribuindo-lhe objetivos partidários. Ao que se sabe, seus integrantes não são militantes de partidos políticos. São alguns dos milhões de desempregados do país, que não acreditam na lisura dos índices oficiais de desemprego (menos de 7% da população economicamente ativa). Os critérios de aferição desse número não consideram a existência de milhares de desempregados. A imensa população carcerária, por exemplo - mais de 200 mil adultos - não trabalha e não é computada entre os sem trabalho. Os egressos de presídios, que buscam trabalho e não o conseguem, por serem discriminados, também estão fora das estatísticas de desemprego, porque não tinham emprego anterior.
Se o movimento pró-demissão daquele a quem consideram seu algoz se propagar, políticos governistas e parlamentares que apoiaram no Congresso as medidas recessivas de FHC, causadoras do aumento do desemprego, serão fatalmente atingidos pela reação dos brasileiros. A insatisfação que orienta essa verdadeira revolta da cidadania repele a desculpa de que o desemprego é o preço a pagar pelo fim da inflação. Para os políticos do governo e seus apaniguados - dizem - há empregos, proteções e benesses. Escaldados por falsas promessas, os organizadores do movimento não acreditam que a reeleição de FHC e dos políticos que o apóiam mude o atual quadro, em 1999. Assim, a demissão, em 1998, dos que demitiram até 1997, pode criar alto número de novos desempregados: os sem trabalho da política.





