Rubem Azevedo Lima

Mulher, voto
e democracia
O Brasil chegou ao equilíbrio quase absoluto entre eleitores homens e mulheres, segundo informação da Justiça Eleitoral. Que significará isso para as futuras eleições brasileiras? Em passado recente, num daqueles debates bem- humorados que se travavam na Câmara, certo deputado gaúcho afirmou, sobre o pundonor de seus coestaduanos, que ‘‘no Rio Grande do Sul, somos todos machos’’. O mineiro Último de Carvalho retrucou: ‘‘Em Minas, metade é macho, metade é fémea e todos vivemos felizes com isso’’.
Em tese, politicamente, a mesma sensação do antigo representante de Minas deve ser a de todo o País, diante das estatísticas eleitorais. Homens e mulheres, com suas idiossincrasias e problemas específicos, terão, agora, o mesmo peso na escolha de nossos futuros governantes e representantes legislativos.
Nada mudará, porém, se a maioria do eleitorado masculino e feminino votar, conforme fez em pleitos anteriores, sem preocupar-se com o interesse público e como se todos os candidatos a cargos eletivos fossem iguais, sendo tão irrelevante votar nesse ou naquele quanto não votar em ninguém.
Por maior que seja o número de votantes e por mais que a vontade política individual se dilua na massa dos que votam, o voto não deixa de ser o melhor instrumento para realizar a democracia. Há quem questione se o número maior de eleitores ou eleitos, representantes e governantes, que votam ou pensam politicamente da mesma forma, estejam mais certos do que a minoria. Podem até não estar, mas, face à ditadura temporária das maiorias eventuais, só uma ditadura é pior: a das minorias que se julgam infalíveis e donas da verdade. Devido a esse tipo de incerteza, a maioria tem o dever de respeitar os direitos das minorias. Ao eleitorado - a cada eleitor em particular - cabe corrigir, com o voto, nas eleições seguintes, as más escolhas anteriores.
O craque Pelé, hoje ministro do presidente Fernando Henrique, dizia que o povo não sabia votar, talvez porque não elegesse o governo de seus sonhos. Que será que ele diz hoje, embora milhões de brasileiros se queixem de FHC? Pelé parecia partir da idéia falsa de que muitos candidatos, por não serem formados, não deviam ser eleitos. As qualidades básicas para qualquer político não são seus cursos, mas a honradez, a tolerância, a fidelidade a princípios, a humildade, a capacidade para decidir e o bom senso, com o qual entendam, sempre, ser possível reformar tudo, menos contra a vontade de todos ou em prejuíjo da identidade e do interesse nacionais.
Qualquer eleitor pode escolher mal e votar inadvertidamente no pior, desencantando-se, por isso, com as eleições. A decisão de anular o voto ou de não votar mais, a partir de tal frustração, implica transferir para outrem o dever de reparar o erro individual. Isso não funciona. Talvez só ajude aos que se beneficiam dos erros eleitorais e que muitas vezes até os provocam intencionalmente, corrompendo, pressionando ou induzindo eleitores. Todo cuidado no voto é pouco.
É mais fácil falar em votar do que votar. Eleitores dos dois sexos erram e se arrependem. Mas, diga-se em favor das mulheres: nenhuma delas se fez ditadora pelo voto. Quem chegou mais perto disso foi a inglesa Thatcher. Homens e mulheres deram-lhe o poder e a tiraram dele cansados ou arrependidos. Democraticamente.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília
O colunista Ruy Fabianoestá em licença

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