Rubem Azevedo Lima
Rubem Azevedo Lima
Os grandes homens públicos quase sempre têm a marca das utopias e esperanças de suas gerações. Ruy Barbosa refletia as preocupações antiescravagistas e republicanas que perpassaram a vida universitária de seu tempo. De Gaulle era a grandeur da França de Verdun em contraposição à vergonha de Vichy; Churchill, o poder e a tradição das instituições do velho Império Britânico; Getúlio Vargas, o caudilhismo político, patriótico e progressista, num país jovem.
Em artigo publicado no semanário The Nation, John Patrick Diggins, autor do ensaio Lincolns Legacy: Americans Lost Treasure (O legado de Lincoln: tesouro perdido da América), recorda alguns ideais e aspirações da geração americana dos anos 60 e 70 e os compara com a prática política atual do presidente Bill Clinton.
Quais seriam esses valores? O pacifismo, provavelmente em resposta às ameaças da guerra fria e às más lembranças do Vietnã, expresso na fórmula Faça amor, não faça a guerra. Nas universidades, os estudantes sonhavam com uma sociedade menos injusta e de bem-estar para todos. Consolidavam-se, então, as resistências, contra as tentativas de manipulação do poder, e a mentira e o cinismo políticos eram repudiados praticamente por todos os americanos.
Com base nesses valores, dos tempos em que Clinton formava seu caráter, Diggins concluiu que o presidente americano deixou de identificar-se com sua geração. Tornou-se belicista e esqueceu as esperanças de redução das desigualdades sócio-econômicas, tão fortes no espírito dos moços daqueles anos. Além disso, ele teria cometido uma traição que Diggins julga fundamental: mentiu ao povo, ao Congresso e à própria família, conforme se verificou durante a discussão de seu impeachment.
Quais seriam os melhores valores da geração do presidente Fernando Henrique Cardoso, nascido 15 anos antes de Clinton? Não devem divergir muito dos que marcaram o caráter do presidente americano. Com o tempo, ou talvez pela prática da política, muitos deles ficaram menos importantes ou se perderam.
Quem diria, no começo dos anos 80, que FHC, algum dia, pudesse apoiar, a qualquer pretexto, ações como o bombardeio da Sérvia pelos EUA, a imposição de duras medidas contra aposentados e trabalhadores, a alienação do patrimônio produtivo do Brasil ou a concessão de tantos favores a banqueiros falidos?
A verdade - valor escasso nas altas esferas políticas do País - é que o presidente FHC parece não estar à vontade, como um grande pensador francês dizia estar, em termos de fidelidade às idéias e princípios cultivados por sua geração. Promessas políticas do presidente - sobre emprego, saúde, educação, habitação e justiça social - estão esquecidas ou se realizaram em parte, mas sem atenderem aos melhores valores, consagrados pelo espírito da geração de FHC.
Infelizmente, porém, infidelidades desse tipo fazem mais malefícios ao País do que aos políticos, pois destroem, sem contemplação, princípios essenciais, vivos e fortes - até quando? - latentes sob as esperanças de cada brasileiro.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília





