Para bom entendedor, meia frase basta. Antes de anunciar o título do filme que ganhou o Leão de Ouro no 65º Festival de Veneza, o cineasta e presidente do júri, Wim Wenders, disse brincando: ''Eu sei o que está escrito nesse envelope''. E logo a seguir, agora sério, continuou: ''O filme que nesta noite leva o Leão de Ouro contém uma heartbreaking performance'', vale traduzir aproximadamente o espírito da frase: uma atuação de tirar o fôlego, de partir corações, arrasadora. E então todos já sabiam, sem precisar abrir o envelope, que o vencedor era ''The Wrestler'' (O Lutador), o ultimo concorrente a ser visto, na sexta à noite.
Este pré-anuncio de premiação foi imediatamente reconhecido pela platéia que lotava a Sala Grande. O diretor do filme, Darren Aronovsky, e o intérprete, Mickey Rourke, subiram ao palco; somente então Wenders abriu o envelope. O filme é bom, com certeza, mas não me lembro, em mais de uma década de cobertura em Veneza, de algo parecido - a parte garantir o todo, vale dizer, uma só interpretação validar um trabalho coletivo.
No palco, o ator foi o primeiro a falar, e sua fase performática - inclusive levou sua senil cachorrinha chiuhuaua para a cerimônia de premiação - garantiu bons momentos de descontração, por conta da indumentária e do discurso sempre pouco convencionais.
Só para recordar. Mickey Rourke surgiu com todo o gás na década de 1980 em ''O Selvagem da Motocicleta'', ''Nove e Meia Semanas de Amor'' e ''Coração Satânico'', para em seguida deixar o cinema em último plano e se dedicar a um sonho de adolescente, o boxe profissional. Durante esta lendária tentativa de suicídio artístico, Rourke lutou oito vezes. Foram seis vitórias, dois empates e uma face desfigurada e reconstruída pelas diversas cirurgias plásticas. Foi com esta cara totalmente diferente que ele se apresentou na calorosa entrevista coletiva, bem humorado e aparentemente feliz.
A decisão do júri trouxe enorme alívio a todos, que temiam uma cesta de prêmios tão mal servida como foi a mostra competitiva. Mas o bom senso falou mais claro e alto, e o anúncio dos demais vencedores não foi contestado. Uma certa irritação para o Leão de Prata de melhor diretor dado ao russo Alecksey German Jr por ''Soldado de Papel'', que também teve premiada a fotografia. Mas no atacado a coisa foi satisfatória.
O Prêmio Especial do Júri foi atribuído ao etíope ''Teza'', que ainda foi reconhecido como o melhor roteiro. Um Leão especial, prêmio facultativo do júri, foi dado ao veterano diretor alemão, Werner Schroeter, que apresentou aqui um dos piores filmes da mostra, ''Nuit de Chien''.
Melhor atriz foi a francesa Dominic Blanc pelo trabalho minucioso em ''A Outra''. E os italianos celebraram com festa o mesmo troféu Coppa Volpi de melhor ator dado a Silvio Orlando por ''O Papai de Giovanna''. A atriz revelação foi a americana Jennifer Lawrence por ''The Burning Plain''. O prêmio Luigi De Laurentiis para melhor filme de estréia ficou com ''Pranzo de Ferragosto'', título que para muitos deveria estar na mostra principal e com boas chances de disputar o Leão de Ouro.
* O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Veneza

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