Roubar para alimentar o filho
Reginaldo Daniel da Silveira
O fato que recentemente ocupou espaço na mídia é mais que uma simples manchete criada para chamar a atenção por sua emotividade ou imaginação. Na gama de significados que ele produz, o sentido psicossocial torna-se relevante pois é no âmbito do indivíduo e das relações sociais que se instaura um sentido de alerta sobre o que tem sido, o que é, e o que poderá ser a identidade da "espécie brasileira". A brasilidade tem sido construída por forte processo político sobre o cultural e com ele o estabelecimento de crenças que dão um sentido determinístico de vulnerabilidade ao homo sapiens braziliensis.
O desencanto assoma nas matizes do cotidiano, como na sala de aula sobre ética quando um aluno pergunta ao professor (por ingenuidade ou troça): "Mestre, os juízes no Brasil são seres superiores?". O professor faz que não entende o que para ele é muito claro. O rapaz, então com ares de gênio, explica que no Brasil os juízes têm direito a 60 dias de férias, auxílio moradia no valor de R$ 4,4 mil mensais e trabalham num projeto de lei para auxílio educação. O pior, diz ele, conheço um que recebe esse valor e mora em sua mansão no Alphaville.
A pergunta ao professor pode ter sido originada por quem não gosta de magistrados, como os indignados com um juiz no Rio de Janeiro. Ele deu voz de prisão a uma funcionária do Detran, ao saber que seu carro seria rebocado. A agente foi condenada a pagar uma multa de R$ 5 mil, valor superior ao seu salário. Ao ver o policial militar que vinha lhe algemar, ela bradou: "Juiz não é Deus".
A identidade do homem brasileiro é construída no amálgama da desigualdade social. Ao tentar furtar carne num mercado em Santa Maria (DF) para alimentar o filho de 12 anos, o eletricista Mario Ferreira Lima, que recebe R$ 70 do Programa Bolsa Família, disse que confundiu as datas do benefício e ao descobrir que o valor disponível era insuficiente, tentou esconder a carne numa bolsa, coisa que segundo se apurou já deve ter ocorrido antes.
O roubo chama a atenção na mídia, mas a cortina que se abre é aquela que mostra no palco os personagens do abismo socioeconômico no País. De um lado, empresas (algumas em simbiose e coparticipação na corrupção junto à elite política), governantes, corporativistas do funcionalismo público e dos Três Poderes. Do outro lado, os desvalidos entre os quais os reféns do Bolsa Família. Ao verificar os dados da Pesquisa Nacional Por Amostra de Domicílios (PNAD) não há espanto em constatar que o acúmulo entre 59,90% e 68,49% da riqueza dos brasileiros está na mão de 0,9%, os mais ricos do país.
A identidade de milhões de Mários do imenso Brasil é definida pelo conjunto de seus aspectos individuais, mas ela é plural, por ser constituída das crenças formadas a partir das relações sociais no agora, nas nossas experiências anteriores e no que é projetado. A identidade é, portanto, a cartografia dos sentimentos gerados por crenças. Nesse fluxo de afetos, o preconceito social ocupa espaço na determinação de classes sociais, dando margem a produção de pensamentos dissociativos, em que se faz acreditar que as classes mais pobres são inferiores e as mais ricas são superiores.
A profecia auto realizadora da Psicologia Social trabalha no indivíduo e estende-se para o coletivo pela associação da pobreza com o fora de ordem, o vergonhoso, o decadente, o fracassado, o inferiorizado que carrega os "sinais da pobreza". A desigualdade diferencia o Brasil de países como a Suécia onde o que se chama de jämlikheten (igualdade social) se verifica em exemplos do tipo: nenhum juiz tem direito a auxílio moradia, auxílio saúde, auxílio alimentação, abono de permanência, prêmios, gratificações extras ou carro oficial com motorista. Nesse país que aparece todo ano na lista dos menos corruptos do mundo, nem juízes e nem políticos tem foro privilegiado. O que sobra a este Brasil do impávido colosso é o receio do futuro pela ilusão do passado e pelo equívoco do presente.
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