Roteiro ''light''?
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quarta-feira, 12 de dezembro de 2001
Márcio Chalegre Coimbra 
O Partido dos Trabalhadores lançou a candidatura de Lula à Presidência da República três vezes. Perdeu todas. À exceção do pleito perdido para Fernando Collor, o candidato do PT perdeu ainda no primeiro turno para o presidente Fernando Henrique em 1994 e 1998. O eleitor havia enviado uma mensagem ao PT: era preciso mudar se o partido desejasse chegar ao Planalto.
Na esteira deste pensamento e com o objetivo centrado na próxima eleição presidencial em 2002, a facção de esquerda representada pelo partido de Lula operou modificações em seu discurso para torná-lo mais palatável para a classe média. No intuito de mostrar a nova roupagem das idéias petistas, foi contratado o ex-marqueteiro de Paulo Maluf, Duda Mendonça. Tudo ia bem, até que.....
Até que Roseana apareceu no caminho de Lula. A pré-candidata do PFL comandou uma série de programas de televisão que catapultaram sua candidatura para além dos 20% de intenções de voto. O que parecia um ''balão de ensaio'', segundo analistas políticos, tomou proporções de uma real candidatura. Os 20% de Roseana são o que provavelmente o presidente FHC gostaria para algum candidato tucano, contudo, os pré-candidatos do PSDB continuam patinando nas intenções de voto. Talvez o percentual de Roseana baixe, como muitos afirmam (ou desejam?), mas o fato é que suas intenções de voto parecem consistentes, visto que atingem significativamente todas as classes sociais em todas as regiões. No que se tornará a candidatura da governadora, só o tempo dirá. Mas este artigo não é sobre o avanço de Roseana.....
Enquanto isso, o candidato petista se dirigiu à França. Lá começaram os problemas. Em conversa com o primeiro-ministro Lionel Jospin, defendeu o regime de subsídios daquele país, um dos principais empecilhos às exportações brasileiras. O fato repercutiu muito mal no Brasil. De volta ao País, começaram os preparativos para a próxima viagem do pré-candidato petista ao exterior.
Lula traçou um roteiro por três países: Peru, Cuba e Venezuela. O governo de Lima não passa por uma boa situação. Segundo Mario Vargas Llosa, o presidente Alejandro Toledo prometeu mais do que poderia cumprir. Esse fato criou uma grande agitação popular, que dificulta um entendimento maior entre as diversas forças políticas daquele país. Mas o Peru somente foi uma escala para outro destino: Havana. Lá, o pré-candidato do PT foi participar de um encontro entre organizações e partidos de esquerda na América Latina. Lá estiveram, além de Lula e sua comitiva composta pelo ex-governador do Distrito Federal Cristóvam Buarque e do atual do Acre, Jorge Vianna, membros das Farc, guerrilha comunista que controla parte do território da Colômbia, e da ELN. Do Peru, veio o Tupac Amaru.
De lá, a comitiva petista rumou para Caracas, onde o presidente Hugo Chávez enfrenta seu momento mais difícil depois de baixar um pacote de 49 medidas econômicas controversas. Lula, durante sua estada na capital venezuelana indicou: ''Ele pensa o que eu penso''.
Cuba e Venezuela adotaram modelos polêmicos. Castro ''El Comandante'', com 75 anos, é um dos últimos ditadores do mundo. Dirige um país com economia precária, acusado de comandar um regime que tolhe as liberdades civis e, justiça seja feita, possui altos índices de alfabetização, porém, com um problema: só é possível ler o que o governo permite. Já o grupo que comanda o Palácio Miraflores tem como líder Hugo Chávez, um coronel pára-quedista que esteve preso por tentativa de golpe. Lá, entidades empresariais (Fedecámaras) e trabalhadores (CTV) se uniram contra seu governo. Durante seus quase dois anos no poder, Chávez convocou um novo congresso, alterou a Constituição, se reelegeu para um termo maior, alterou os juízes da Suprema Corte e colocou em curso o que chama de ''revolução bolivariana''.
Se Lula deseja conquistar a classe média e evitar um novo fracasso nas urnas, deve estar atento ao recado que recebeu nos últimos três pleitos: deve evitar radicalismos. Um Lula ''light'' não pode se inspirar em modelos adotados por Cuba e Venezuela, claros casos de autoritarismo.
- MÁRCIO CHALEGRE COIMBRA é advogado especialista em Direito Internacional


