Rosa, amarelo, vermelho e branco
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de junho de 1997
Gaudêncio Torquato 
Não há razão para se temer no Brasil os efeitos da onda rosa - as vitórias do trabalhista Tony Blair, na Inglaterra, e do socialista Lionel Jospin, na França. Blair é intérprete de um terceiro caminho, na Europa, que se situa entre a antiga via intervencionista estatal e o acúmulo de controle sobre os empresários e a tradicional posição conservadora de deixar que o mercado decida tudo sozinho. Ele age mais como um social-democrata na defesa de uma política de pleno emprego. Jospin é estatizante e um socialista à moda antiga, mas sua vitória se deveu mais a erros táticos cometidos pelo presidente Chirac, que antecipou as eleições, do que a opção clara por um programa socialista. Ademais, não se pode falar de onda rosa, quando se sabe que os partidos socialistas já governam ou participam de governos em 13 dos 15 países da União Européia.
Há razão para se temer, isso sim, os efeitos da onda amarela, que é a pefelização plena do Governo de Fernando Henrique. E a razão é simples: o PFL é um partido de profissionais que sabem como chegar, como se manter e como abrir espaços no poder. Abrigados sob o chapéu do liberalismo, os pefelistas brasileiros adensaram seu conceito com o oxigênio fornecido pela queda do Muro de Berlim e pelas tendências modernizantes da globalização. Mas no fundo, essa questão de conceito é, para eles, coisa menor. Eles gostam mesmo de praticar é o conservadorismo, ao qual dedicam a melhor de suas artes e o mais apurado maquiavelismo e seus correlatos conceitos de caciquismo, mandonismo e clanismo.
Ao sinalizar o nome do deputado Luís Eduardo Magalhães para coordenar a campanha de 98, Fernando Henrique praticamente deixa em segundo plano seu próprio partido, o PSDB, e os demais que compõem a base aliada. A pefelização do Governo significa, portanto, a pasteurização programática, a opção pela política de acordos intergrupais e inter-regionais e a prevalência do individual sobre o coletivo. Afinal de contas, o que prega o PFL, senão bater no velho refrão da privatização, do mercado aberto, da política do laissez-faire?
Anunciar que prefere Marco Maciel, uma das referências mais qualificadas do PFL, como vice em sua chapa, significa antecipar duelos e abrir feridas. Chapa, sabe-se, se forma no ciclo pré-eleitoral, depois de análises e acertos com os grupos aliados. Houvesse oposição forte, no país, o presidente estaria com seu estoque político depauperado, tantos erros tem cometido. Mas a onda vermelha está em baixa, com o bombardeio sobre a imagem de Lula, as querelas internas no PT e o ostracismo-jurássico de Brizola. Por isso, o presidente pode-se dar ao luxo de dizer coisas extemporâneas, preocupar-se apenas com acordos para votação das reformas, procurar arranjos cosméticos voltados para arrumar a plástica do Governo junto à sociedade, corrigindo falhas da política de comunicação, e dar aulas de eloquência nos eventos do Palácio do Planalto. Ou seja, nadar na onda branca, que é a onda de muita espuma, muita falação e pouca ação.
Para ser justo, há que se enfatizar os ganhos sociais com a política da estabilidade e a inserção de alguns milhões de brasileiros no mercado de consumo. O ciclo do Real está, porém, esgotado. Ao presidente sugere-se examinar a fortaleza dos cinco dedos que levantou na campanha. Alguns deles estão abaixados ou tortos. Enfrentar uma segunda campanha, com a mão escondida, é expor a face para estocadas diretas, que poderão provocar hematomas irreparáveis. E se a face estiver muito coberta pelo amarelo pefelista, é bom tomar cuidado. As outras cores do arco-íris poderão se juntar num complô perigoso. As eleições na Inglaterra e na França demonstraram que ninguém é dono absoluto de um lugar na política. E que não se ganha campanha de véspera.


