O número e a expressão que o acompanha está em todos os jornais. O Banco Central calcula que a correção de todas as contas do FGTS por índices expurgados em dois planos econômicos provoque um ‘‘rombo’’ de R$ 38,8 bilhões nas contas da União. A palavra rombo, nesse caso, aparece com sentido pejorativo e negativo. Sinônimo de desfalque. Dá a idéia de que alguém está botando a mão indevidamente no dinheiro público. Se o que o Supremo Tribunal Federal determinou é a devolução de algo expurgado ilegal e injustamente no passado, por que se trataria de rombo?
Nesses tempos modernos, de globalização e comportamentos politicamente corretos, as palavras quase criam vida. Valem pelo que escondem ou revelam. A expressão buraco negro, por exemplo, é hoje considerada de péssimo gosto. Afinal, por que haveria de ser negro um buraco e não marrom ou vermelho? Por puro preconceito, pode-se dizer. Assim, buraco negro deixa de ser um buraco sem fim e sem luz para ser sinônimo de discriminação.
Hoje, não se demite mais ninguém. Desliga-se. Pelo jeito, dói menos e é muito mais elegante. Os trabalhadores não estão mais empregados (em especial, os executivos), mas posicionados. Não se fala mais em corte de gastos, mas em equilíbrio orçamentário.
No universo das palavras ou expressões novas, existem ainda aquelas que não querem dizer absolutamente nada. Como implementar uma idéia. Ou processo de negociação. Ou ainda parceria nos negócios. São tão vagas que não informam, deixando ao interlocutor a tarefa de supor o sentido. É um jogo. Quem falou finge que explicou e quem ouviu finge que entendeu.
Rombo, ao contrário, é daquelas palavras que não escondem uma intenção, mas a revelam. Para o governo, pagar o que foi tirado do trabalhador no passado é mesmo rombo, quase uma heresia. Por essa ótica, é possível imaginar os trabalhadores, esses ingratos, invadindo o lindo prédio do Banco Central a pontapés para arrancar dos cofres o que lhes foi negado pelos planos econômicos.
Até o tamanho do número é pesado – R$ 38,8 bilhões. É uma dinheirama mesmo. Uma cifra intimidatória. Deve haver trabalhadores achando que, se quiserem reclamar os trocadinhos surrupiados da sua contas do FGTS podem quebrar o País. Em compensação, um cidadão comum condenado a pagar uma dívida antiga pela Justiça é caloteiro, fica com o nome sujo na praça, pode e corre o risco de ir parar na cadeia. A ajuda ao Banco Marka, durante os dias loucos da desvalorização do real, ao contrário, significa garantir a saúde do mercado financeiro. As palavras, portanto, não são usadas ao acaso. Nem os números.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em Brasília

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