Românticos de Cuba - Joel Samways Neto
Românticos de Cuba
Joel Samways Neto
Quando esta coluna estiver publicada, o Papa já terá deixado Cuba (ao menos, essa era a programação de sua visita ao país). Como será o dia seguinte às pregações evangélicas de João Paulo II? O mundo inteiro acompanhou sua estada entre os cubanos - e teve a memória refrescada acerca da história de vida do Sumo Pontífice - seu discurso e militância contra o comunismo, sua sobrevivência à ocupação nazista que a Polônia sofreu, sua contribuição (direta ou indireta?) para a queda do Muro de Berlim etc.
Igualmente o mundo inteiro foi lembrado de que não há respeito aos direitos humanos em Cuba. O quê? Não há liberdade civil na Cuba dos revolucionários barbudos da Sierra Maestra? Engraçado como as coisas são: os marxistas (principalmente os stalinistas, como Fidel Castro e sua turma) sempre cuidaram muito bem da narrativa histórica dos seus feitos.
Sempre mostraram - e exaltaram e exacerbaram - suas virtudes, mas esconderam os vícios. No Brasil, sempre lemos essas exaltações nas declarações de escritores, jornalistas, músicos, poetas, no mínimo simpatizantes da modalidade de esquerda do regime político cubano.
Todos eles, que iam à Ilha para visitar, fazer turismo, conversar com o ditador, participar de congressos, voltavam cantando em prosa e verso as maravilhas da educação e da medicina socializadas. Eram modelo para o planeta (falavam o mesmo da Albânia). Todos com um ardor juvenil de ex-combatente, vestindo camiseta com a estampa de Che Guevara e ares de estive lá.
O costume era publicar a entrevista certa, com o entrevistado certo, o entrevistador certo, as perguntas certas. Só o triunfalismo. Só as grandezas da Ilha. E gente respeitada entre nós, brasileiros. Intelectuais e artistas com fã-clube cativo e coisas do tipo. Professores universitários que, tendo estado lá ou não, encheram (enchem) a cabeça dos seus alunos com descrições fulgurantes da guerrilha romântica encetada contra o imperialismo ianque.
A filtragem das informações sempre foi tanta que chegou a diminuir a importância de Mikhail Gorbatchev, então presidente da União Soviética, que foi a Havana dizer que não iria mais sustentar o regime castrista. Gorbatchev revelou a farsa soviética - aquilo que a censura, a patrulha política, a repressão e o medo não deixavam ver. Cuba mantinha seus feitos pedagógicos, médicos e olímpicos à custa de uma espécie de mesada de Moscou.
De repente, começo a entender por que Fidel Castro, ao discursar, fala durante horas. Porque a prolixidade é a ferramenta fundamental para se escamotear a verdade. A verdade é simples, é síntese, é dita em poucas palavras. Agora, para falar de uma revolução realizada a pretexto de libertação, dentro de um regime totalitário, é preciso gastar isso e a saliva.
Como falar em liberdade quando os dissidentes políticos, os escritores e os poetas que ousaram discordar do ditador estão apodrecendo em masmorras? Como falar em liberdade se as pessoas não podem praticar livremente a religião de sua preferência? Mas fiquemos com os dados objetivos, não contestados, fornecidos pela própria imprensa (oficial) cubana: não há partidos políticos de oposição! Não há eleições livres! Não há imprensa de oposição!
Ou Cuba é uma unanimidade (e nem vou citar o conceito de Nélson Rodrigues sobre unanimidade, que os cubófilos adoram) ou há algo de muito errado recendendo naquele país. Então, quer dizer que, a despeito das recentes declarações do arcebispo de Havana (prontamente contestadas por Armando Valladares, no artigo Fidel mente ao dizer que é tolerante, na Folha de S.Paulo de 23/01, p. 1-16), os revolucionários de Castro perseguiram implacavelmente os católicos cubanos?
Ora, ora. Face a isso, e às outras revelações, qual é o conteúdo, o estofo social, político, econômico e cultural dos marxistas-stalinistas-castristas que pululam no Brasil? Como podem estar dirigindo entidades estudantis como a UNE? Como justificam o sectarismo do ditador cubano? Com a ameaça contra-revolucionária norte-americana?
Os cerca de cem mil estudantes e civis que ocupavam a Praça da Paz Celestial em Pequim, em junho de 1989, manifestando-se pacificamente em prol da democracia, mostravam faixas e cartazes com frases assim: Não queremos arroz, queremos liberdade. Foram literalmente esmagados pelos blindados do Exército, por ordem do Partido Comunista chinês.
Fidel Castro também esmaga, ao seu modo, seus opositores. Ninguém foge para Cuba, observou Bóris Casoy. O Papa pregou o Evangelho de Jesus, um revolucionário que não usava armas, que nunca matou nem mandou matar ninguém. Acho que a ditadura castrista está acabando.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado do Paraná





