Rogério Lima
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de maio de 1999
Rogério Lima 
Um antigo ditado, atribuído a Catão, senador romano, diz que as torres e as masmorras estão cheias de maus ladrões, enquanto os ladrões públicos andam por aí em ouro e seda. Na Idade Média, o ditado ganhou uma nova versão: os grandes ladrões enforcam os pequenos ladrões. Vê-se, com isto, que desde os tempos mais remotos da dita civilização ocidental, a corrupção e os desmandos com o dinheiro público já aconteciam de forma preocupante, sem, contudo, a Justiça, frequentemente comparsa dos ladrões públicos e dos grandes ladrões, agir com mais rigor sobre os mais aquinhoados, preferindo impor sentenças aos desguarnecidos financeiramente. Nota-se, também, que a sociedade, embora em raros exemplos, dava mostras de sua contrariedade, porém a rapinagem e a locupletação eram e continuam sendo tratadas com mais seriedade pelos humoristas do que pelos representantes da Justiça.
Novos tempos, velhos costumes. A sociedade moderna convive com a desonestidade daqueles que ocupam postos chaves no Poder Público e deveriam cumprir o papel de guardiões dos bens e do dinheiro público, mas que, ao contrário, são os facilitadores, os cúmplices dos oportunistas, dos ladrões que praticam a máxima o que é de todos é de ninguém. Aproveitando a lassidão e a irresponsabilidade dos maus funcionários públicos, estes ladrões cheios de estilo e sutilidade, abocanham de forma vergonhosa os recursos públicos e colaboram decisivamente para o empobrecimento da população, o sucateamento das estruturas públicas de educação, saúde e segurança, para a descrença generalizada no Poder Público e para a perpetuação de um problema que há séculos vem afligindo a humanidade sem merecer as penalidades devidas. Ao contrário, só é estimulado e virou regra comum.
As duas CPIs mais badaladas do momento - dos Bancos e do Judiciário - têm revelado, dia a dia, surpreendentes abominações. Duvido que mesmo um cidadão de comportamento mais pétreo não tenha esboçado uma reação indignada quando ficou sabendo que 24 bancos, muitos estrangeiros, faturaram, num curto espaço de tempo, graças à valorização do dólar perante o nosso real, nada mais, nada menos, que absurdos US$ 10 bilhões, ao mesmo tempo em que o nosso Banco do Brasil, no mesmo período, perdeu mais de US$ 7 bilhões. Quer dizer: o povo brasileiro pagou uma aposta viciada dos espertalhões especuladores, mancomunados com alguém do próprio Banco Central que alertou previamente sobre a desvalorização do real. Para fechar a conta, novamente prejudicando o povo, o governo federal decreta um corte de aproximadamente R$ 2 bilhões nas dotações orçamentárias para o setor social. Numa nefasta, mas há anos promovida, inversão de valores, o lucro foi privatizado e o prejuízo socializado.
Da mesma forma, o juiz Nicolau e seu agora famoso ex-genro travam uma escandalosa batalha verbal sem precedentes, acusando-se mutuamente e tentando impingir, um ao outro, adjetivos escabrosos. Não podemos deixar de considerar que ambos, nos bons momentos de seu relacionamento familiar, gozaram os prazeres proporcionados pelo dinheiro público vergonhosa e descaradamente surrupiado pelo juiz, embora ele próprio tente negar, contrariando todas as evidências, que não se apropriou, usando de subterfúgios, de recursos destinados à construção do suntuoso edifício do Tribunal Regional do Trabalho, em São Paulo, orçado em mais de R$ 200 milhões.
Existem, ainda, outros casos maiores e menores de corrupção, o que deixa claro que o Brasil é mesmo o País das oportunidades. Quem tem a oportunidade de roubar, salvo raríssimas exceções, não deixa que ela escape. Não que em outros países a situação seja diferente.
Ao povo, sempre pobre coitado na história nacional, parece restar apenas o papel de espectador, passivo e imóvel, esperando a redenção e o reconhecimento das culpas dos criminosos e suas sentenças. Dá para ser diferente? Dá. O professor Darcy Ribeiro já vislumbrou a possibilidade: Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca.
A resignação do brasileiro já passou dos limites. É preciso que a indignação fale mais alto e, se preciso for, mostrá-la em atos públicos, nas ruas, não dando tréguas para os grandes ladrões, os ladrões públicos e os malfeitores que tanto prejuízo têm dado ao nos-so povo. Que tal começar agora?
- ROGÉRIO LIMA é vice-prefeito de Palmeira


