Robin Hood ao contrário - José Carlos Tiburcio
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 06 de julho de 1998
José Carlos Tiburcio 
Confirmando a diabólica teoria de que tudo sempre pode ficar pior do que está, a economia rural paranaense se vê diante de um novo obstáculo no seu caminho já cheio de dificuldades: o pedágio das rodovias privatizadas. Deixando de lado a discussão sobre a constitucionalidade, o caráter moral dessa nova modalidade de se ganhar dinheiro fácil à custa do suor dos outros, a questão do pedágio tem tirado o sono e a paciência do segmento, assim como de todos os demais.
A atividade rural é sempre a caixa de pancadas preferida dos governos. Como ressonância disso, está marcando passo há mais de vinte anos com a produção anual de grãos do mesmo tamanho. Como não consegue sair do lugar, não consegue aumentar suas marcas e fica variando de 70 mil a 80 mil toneladas, quando poderia facilmente produzir 150 mil toneladas.
Tudo por falta de recursos. Temos terra, pois só plantamos em cerca de 30% de toda a nossa disponibilidade agricultável; temos tecnologia e pesquisa, pois obtemos os mesmos níveis de produtividade dos Estados Unidos em milho e soja; temos produtores capazes; e temos demanda.
Só nos falta dinheiro, que deve ser disponibilizado pelo governo como acontece nos países desenvolvidos. E o governo tem recursos? Claro que tem, como teve os R$ 30 bilhões que arranjou para tirar bancos particulares e estatais do buraco. E para a agricultura não seria um valor tão alto: com R$ 8 bilhões por ano, o governo conseguiria financiar toda a produção. E seria mais barato do que importar arroz, feijão, trigo, leite.
As coisas estão erradas porque não há políticas adequadas, fortes e sistematizadas. E quem é que faz essas políticas? O governo. E quem o pressiona? A comunidade, através de seus parlamentares. Quando a produção rural tiver uma representatividade expressiva e tomar assento na Assembléia Legislativa do Paraná, através de uma bancada ruralista, certamente poderá encaminhar e ver atendidas as suas reivindicações.
O pedágio vai penalizar todo mundo, sobretudo porque seu custo é muito alto com relação à péssima qualidade das estradas. Mas vai penalizar quem obrigatoriamente tem que passar todo dia, como os produtores rurais. Muitos deles moram nas cidades adjacentes, pois precisam de escolas para seus filhos - que o meio rural normalmente não oferece.
O pedágio também vai pegar todo o pessoal de assistência técnica e difusão, os vendedores de máquinas e equipamentos e de insumos. Os produtores avícolas, geralmente pequenos proprietários que trabalham no sistema integrado, também serão penalizados, pois é muito grande a movimentação de levar pintinhos para as granjas, levar ração para eles, dar assistência veterinária e técnica, buscar as aves para o abatedouro e depois transportar a carne para o mercado.
O caso dos pequenos produtores de leite também é exemplar. Eles serão fatalmente inviabilizados com o pedágio. O pequeno produtor, que hoje produz 100 litros por dia, vende o litro a R$ 0,16 ou R$ 0,20. Com o pedágio, vai deixar 50% de sua produção na estrada. E vai ficar chorando o leite derramado pela desfavorável privatização, que cobra pelos serviços antes de fazê-los.
O caso do calcário é outro exemplo. Um caminhão que vai buscar 10 toneladas de calcário na Região Metropolitana de Curitiba, vai pagar, entre ida e volta, de R$ 90 a R$ 120 de pedágio. Isso vai representar entre R$ 8 e R$ 12 por tonelada. Só que na mina, o calcário custo R$ 6 a tonelada.
O calcário, essencial para o produtor, mas que só tem no Sul do Estado, é outro insumo que já vem sendo penalizado neste governo. Em 1994, como secretário estadual da Agricultura e do Abastecimento, tive a oportunidade de verificar as discrepâncias e obtive, através do Programa do Calcário, uma saída interessante para os produtores.
O programa foi um sucesso, pois conseguiu distribuir mais de 600 mil toneladas de calcário subsidiado naquele ano, favorecido por um acordo envolvendo governo, donos de minas, transportadores e prefeituras. Com o programa, conseguimos derrubar o preço da tonelada de R$ 30 para R$ 18, para o calcário posto-Londrina ou posto-interior. Neste governo, o preço voltou aos R$ 30, por falta de atenção. Naquele ano, o consumo total no Paraná foi recorde nacional: 3,2 milhões de toneladas.
Se o governo não se apressar, o pedágio será o último carrasco da agricultura paranaense. E, no fim, quem vai pagar a conta - como sempre - são os mais pobres, pois os custos serão repassados para a cesta básica de alimentos. A proposta de diferenciação do valor do pedágio, que está na mesa do governo, é apenas uma solução paliativa. É medida claramente eleitoreira. Obtuso, o governo não consegue ver que está agindo ao contrário de Robin Hood. Está tirando dos pobres para entregar aos ricos.
- JOSÉ CARLOS TIBURCIO é empresário rural e ex-secretário estadual da Agricultura e do Abastecimento do Paraná e ex-presidente da Sociedade Rural do Paraná


