Rivalidades do passado
Durante os longos anos da guerra fria, o equilíbrio pelo terror nuclear deixou o mundo várias vezes à beira de uma guerra terminal. As duas grandes superpotências praticamente dividiram o mundo em esferas de influência e, não poucas vezes, deixaram o planeta em suspense. A Organização das Nações Unidas, embora fraca, tentava conter os ânimos e evitar o pior. Felizmente, ainda que aos trancos e barrancos, conseguiu. Criada depois da Segunda Guerra para evitar novos confrontos, a entidade mundial dependia basicamente dos Estados Unidos e da União Soviética para se manter, de tal modo que sua atuação era, sempre, muito truncada.
Naquela época, a escolha do principal dirigente do organismo mundial, o secretário geral, era um malabarismo delicado e difícil. Como Estados Unidos e União Soviética tinham poder de veto - se um era contra algum nome, podia barrá-lo mesmo que a maioria o aprovasse -, escolher alguém aceitável para ambos sempre foi uma loteria trabalhosa. Os soviéticos chegaram, uma vez, a propor uma Secretaria Geral com três secretários - um escolhido pelo bloco soviético, outro pelos aliados dos Estados Unidos e o terceiro pelos países neutros. Isto só não se concretizou porque prevaleceu a tese de que sem um titular único a própria ONU se esboroaria.
A derrocada do comunismo na Europa Oriental e Central acabou com a guerra fria e criou uma nova situação mundial. E o que se esperava então era não só que o equilíbrio do terror terminasse, o que de fato ocorreu, mas que o mundo todo entraria numa nova era de entendimento. O fim da ameaça de um confronto nuclear entre potências com armas em quantidade suficiente para destruir o mundo várias vezes, indicava o despontar de uma fase melhor para a sociedade das nações. Os mais otimistas chegaram a sonhar com a possibilidade de que os gastos mundiais com armamentos se reduzissem drasticamente, sobrando dinheiro para acabar com a fome, a doença e o atraso no mundo.
Este novo tempo é certo que virá, ainda vai demorar. Há guerras isoladas por muitas partes do planeta. A indústria de armamentos ainda é fortemente solicitada e há sinais de que as rivalidades do passado entre a ex-URSS e os EUA ainda não foram sepultadas. Mais do que isso, os Estados Unidos dão mostras de que não vão ceder facilmente o papel de xerife mundial. Intervenções mais ou menos abertas e o agravamento do embargo contra Cuba dão a impressão que os norte-americanos pretendem impor certas posições ao mundo.
E, agora, às vésperas do fim do mandato do atual secretário geral da ONU, Butros Butros-Ghali, esta impressão se robustece. O nome do atual titular, como candidato a um novo mandato, foi apresentado ao Conselho de Segurança por membros permanentes, França e China, e teve 14 votos (dos 15 do CS) a favor. Os Estados Unidos, porém, não só votaram contra como usaram seu poder de veto. Aceitam outro diplomata africano - Butros-Ghali é egípcio -, mas não a reeleição do atual secretário.
E o que já não se esperava ver de novo, acontece: a Rússia, que ainda tem poder de veto, anuncia que não aceita outro secretário, a não ser Butros-Ghali. Os antigos gigantes voltam a medir forças, criando uma curiosa expectativa e uma situação que parecia ter ido para os baús da História. No cerne de tudo não está apenas a escolha do novo secretário da ONU, mas a ambição de dominar as decisões sobre os destinos do mundo.





