Grupos de jovens com interesses ou ideologia em comum sempre estiveram presentes na vida em sociedade. O problema é que esses indivíduos incomodam os demais quando se envolvem com violência e extremismos. Casos de choques entre grupos rivais têm se tornado mais comuns e ganhado cada vez mais visibilidade na mídia. Apenas neste mês duas ocorrências do tipo foram destaque na imprensa nacional. Em São Paulo, skinheads e punks se agrediram. O confronto resultou na morte de um jovem e outro está em estado grave. Em Belo Horizonte, um casal homossexual também foi vítima de skinheads.
A professora de Ciências Sociais da Faculdade Latino-Americana, em Anápolis (GO), Mirian Abramovay, explica que viver em gangues é uma caractetística humana e que muitas vezes o grupo funciona como escudo, fazendo com que o indivíduo se sinta protegido para cometer atos que não faria sozinho.
''É mais fácil cometer atos de violência quando se sente protegido pelo grupo. Nas gangues, por exemplo, eles cometem atos em grupo, mas depois existe a vingança que é individual'', alerta.
De acordo com a socióloga, um fenômeno que tem chamado a atenção é a participação feminina nas gangues. As meninas estão ganhando espaço nestes grupos e já integram ''subgrupos'' formados apenas por mulheres. Para ela, a facilidade de divulgar os atos ilícitos pela internet pode servir de motivação para alguns indivíduos.
Nesta entrevista, Mirian aborda a diferença entre gangues e grupos organizados e discute a influência que a espetacularização da violência tem sobre o comportamento dos jovens.
Qual é a definição de gangue?
A palavra gangue tem diferentes sentidos. Muitas vezes a ouvimos ligada à questão do tráfico. A imprensa não faz muita diferença entre grupos de jovens e gangues. Em geral chamamos de gangues jovens organizados que assinam um nome e estão ligados à questao da pichação nas ruas.
Por que as pessoas, principalmente os jovens, procuram viver em gangues ou grupos?
Em geral viver ou estar em gangues é uma característica humana. Uma das características da juventude, independentemente da classe social, gênero, raça ou cor, é estar em grupo. Existem diferentes grupos, alguns estão ligados a gangues outros a grupos de futebol, skate, teatro, música e outros ao tráfico.
O que explica o comportamento violento adotado por algumas gangues?
É complicado colocar tudo no mesmo saco. Um grupo de skinheads é diferente de um grupo que picha ou de um ligado ao tráfico. Os skinheads são extremamente violentos. Com eles há pouca possibilidade de estabelecer qualquer diálogo e em geral eles utilizam a força para fazer com que as pessoas sejam parecidas com o que eles acreditam. Comparando com uma gangue de pichadores, têm em comum a questão da rivalidade. As torcidas organizadas e o tráfico também possuem esta característica.
Qual o papel das mulheres dentro destes grupos?
Em uma pesquisa vimos que as meninas estão entrando para estes grupos. Em 2002 observávamos que elas exerciam um papel mais subordinado, hoje constatamos que ainda há uma subordinação grande, mas as meninas já têm grupos dentro dos grupos. Elas estão reivindicando novos papéis. Se organizam como uma ala feminina, mas ainda não têm poder. Elas não são chefes da gangue, têm poder dentro de um subgrupo, mas não conseguem ser líderes gerais.
Não existem grupos só de meninas?
Existe uma ala feminina. Não encontramos nas gangues, no tráfico, nos skinheads ou nas torcidas organizadas grupos exclusivos de meninas. Parte das meninas valoriza algo que é ser macho, ter poder e elas também querem isso. Existem comportamentos parecidos com o masculino, mas não conseguimos encontrar nenhuma gangue só de meninas.
É verdadeira a teoria que dá conta que os membros destes grupos só cometem atos de violência quando estão com os demais e quando estão sozinhos não são tão valentes assim?
Acho que isso é geral. É mais fácil cometer atos de violência quando se sente protegido pelo grupo. Nas gangues, por exemplo, eles cometem atos em grupo, mas depois existe a vingança que é individual.
Sempre existiram diferentes grupos na sociedade? A tendência é de crescimento do número de gangues e da quantidade de adeptos?
São grupos muito diferentes, não podemos colocá-los na mesma análise. Quando falamos dos skinheads, é claro que não queremos que se disseminem. Queremos uma sociedade sem tanto preconceito, sem tanta homofobia. As torcidas organizadas são muito pouco estudadas para saber quais os meandros, o que chama atenção são as alas jovens que se apresentam muito violentas. O tráfico sempre existiu e tenho a sensação que não vai terminar. É uma discussão do lugar do jovem na sociedade, que espaço eles têm o que eles querem.
Qual é a melhor estratégia de repressão contra as gangues?
Construir prisões não adianta. Sabemos que a maioria das pessoas que estão nas prisões é muito jovem. Os especialistas consideram as prisões como escolas do crime. É uma situação complicada. A grande discussão está em torno das medidas preventivas. Temos que fazer com que estes jovens tenham lugar na sociedade.
A violência e a formação dos grupos começa na escola? Qual o papel da internet nisso?
Estamos estudando há 12 anos a violência nas escolas e abordamos a questão de gênero. Vimos que as meninas querem imitar os meninos, e a questao da internet é muito importante. Vivemos na sociedade do consumo e do espetáculo, filmar agressões também tem que ser considerado crime. Este fenômeno faz com que realmente as pessoas apareçam. Quando estudei as gangues vi que os meninos tiram fotografia de açúcar fingindo que é pó. Pegam dinheiro, espalham em uma mesa pra mostrar que eles roubaram. Aparecem com muitas armas na internet sem esconder o rosto. É a espetacularização da violência. A questão na nossa sociedade é ser famoso e isso vale em qualquer meio. Esses são os valores que estamos colocando como sociedade para eles. São coisas que prejudicam o jovem e precisam ser muito discutidas.
O que pais ou familiares devem fazer quando descobrem que o filho está participando de um grupo violento ou uma gangue de pichação?
Os pais têm que saber antes e não quando já está participando. Eu acho que existe muita dificuldade de diálogo com o jovem. Os pais têm que acompanhar o que acontece na vida dos filhos. Na sociedade temos que ter medidas preventivas, mas na familia também temos que saber o que acontece. Muitas vezes os pais não fazem isso por que não sabem como fazer. A linguagem e a forma de pensar são diferentes. A sociedade tem que ajudar as famílias a entenderem seus filhos, senão teremos mais problemas.

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