Consumimos 875 kg de Ritalina em 2012. Ritalina é o nome comercial do estimulante metilfenidato, também vendido como Concerta. Tal medicamento vem sendo considerado o maior estimulante consumido no mundo, tendo como uma das justificativas para esse crescimento, a sua vinculação ao diagnóstico de Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
O estimulante é comercializado desde 1950 na Suíça, Alemanha e EUA. No início era indicado para tratar a fadiga presente em vários quadros psiquiátricos, como também para tratar o cansaço em idosos. Não havia um diagnóstico específico para seu uso. Atualmente, o medicamento é a primeira opção quando se pensa em TDAH. Os critérios diagnósticos, que hoje incluem adolescentes e adultos, certamente contribuíram para expandir o número de usuários do metilfenidato.
De 2003 a 2012 houve um aumento de 775% no consumo de Ritalina no Brasil. Em 2003 consumimos 94 kg. Nosso país é o segundo maior consumidor de metilfenidato do mundo, primeiro os EUA. Em oito anos, de 2000 a 2008 a comercialização de caixas de Ritalina foi de 71 mil para 1,147 milhões, sem contar as revendas clandestinas. Em 2001, a Associação de Psicologia Americana informou que 2 milhões de prescrições de Ritalina eram feitas a cada ano, uma taxa de 4 crianças por minuto.
É o nosso dever moral colocar sobre isso a simples questão: por quê? Por que estamos consumindo essa duna de Ritalina? Obviamente, a resposta não é simples, mas isso não impede que mantenhamos a questão. As crianças estão hiperativas, impulsivas, desatentas, não param no lugar? Os adolescentes estariam sem foco nos estudos, reprovando nos exames, não acertam no vestibular? Os adultos não passam em concursos públicos? Peço permissão para estas perguntas ingênuas, pois é assim que categoricamente tem-se nosografado esses sujeitos, a partir de modalidades de expressão comportamental que, em vez de serem vistas de forma relacional, individualmente patologizam e encerram um diagnóstico estanque. Muitas vezes, procurar saber o que sente ou pensa uma criança, para essa lógica, pareceria perda de tempo. Soma-se a isto, o fato de em nossa sociedade que visa a performance, a Ritalina oferecer artificialmente o aprovisionamento deste ideal, salienta-se, amiúde inatingível.
O apelido da Ritalina é "droga da obediência" devido ao possível efeito zumbi e letárgico que ela pode provocar. Além disso, pode causar diversas reações, como por exemplo, psicose, alucinações, insônia, enjoo e suicídio.
A prescrição banalizada de psicofármacos não está apenas para os hiperativos deficientes de atenção, mas em toda a área da saúde mental. Essa dopagem sistemática acontece quando a interpretação de fenômenos psíquicos e comportamentais se vê reduzida pelas vias das explicações neuroquímicas. A psiquiatria tem sido patrocinada pelas empresas farmacêuticas e não faltam referências para aqueles que desejam saber sobre isso. Existem exceções, tanto do lado do médico que pondera e ainda mantém sua ética diagnóstica quanto do lado do paciente que, em alguns casos, necessita ser medicado. O quadro que procuro evidenciar é sobre o movimento geral, que vai de pesquisas científicas financiadas pelas indústrias farmacêuticas até a ilusão de garantia de bom atendimento quando o médico receita algum remédio.
A verdade é que não há um consenso científico sobre a etiologia do TDAH. A outra verdade é que esses fatos aludem a uma ventriloquia que faz do sofredor, fantoche. A mão que o anima é a mesma que estende a pílula a ser engolida.

FÁBIO BRINHOLLI é especialista e mestre em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá e psicanalista em Londrina

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