No Piauí, o Estado mais pobre da Federação, o Tribunal Regional do Trabalho está construindo, com verba superfaturada, um enorme prédio, em forma de navio, onde cada juiz ocupará um andar. Será mais um elefante-branco da farra de extravagância e corrupção, que tem como símbolo principal o ex-presidente do TRT de São Paulo, juiz aposentado Nicolau dos Santos Neto, acusado de possuir altas somas em paraísos fiscais. Nos hospitais do Rio, doentes sofrem com a falta de remédios para hipertensão, diabetes, tuberculose, doenças cardíacas e mentais. No Hospital Salgado Filho, a máfia dos papa-defuntos transformou um auxiliar de enfermagem em um monstro, que teria assassinado mais de 100 doentes. Em São Paulo, as chacinas se multiplicam. E o Brasil entra no rol dos cinco países mais violentos do mundo. Nos Estados Unidos, Fernando Henrique anuncia, com pompa, que ‘‘o pior já passou’’.
Estas paisagens de outono, enfatizadas pela mídia, escancaram a enfermidade física e moral que consome o País. A lógica diria que os eventos acima descritos não fazem parte do mesmo sistema. Como seria possível a um país que sai garbosamente da crise, exibir cenas tão chocantes, como as quilométricas filas de desempregados, em São Paulo, onde profissionais qualificados, com curso superior, submetem-se a uma seleção para limpar ruas e ganhar o salário mínimo? A violência generalizada - a que mata, a que rouba, a que corrompe, a que sonega, a que engana - expressa a dura realidade que as elites políticas teimam em reconhecer: o País está à beira de uma catástrofe social. Só não vê quem não quer.
O monstro do Rio de Janeiro não pode ser considerado uma exceção patológica. Trata-se de produto de um tecido social, cada vez mais esgarçado, doente, deteriorado. Basta analisar seu frio depoimento, ao reconhecer que matava por dinheiro, ensejando a constatação daquilo que os filósofos, um dia, chegaram a anotar: o homem da sociedade consumista constrói sua alma de acordo com a situação material. Será que o ser humano se transforma cada vez mais em um acessório da fortuna? A máfia que empregava Edson Izidoro é um parafuso da monumental engrenagem de desconstrução social, que passa a dar as regras, quando o Estado do bem-estar fica desconjuntado.
Exemplo de priorização do valor material sobre o sentimento espiritual é dado pela própria Prefeitura do Rio de Janeiro, com a idéia de acalentar familiares dos doentes assassinados com uma indenização. Dinheiro pode repor a presença de um ente querido? A pungência do desabafo ‘‘queremos Justiça e não dinheiro’’ não comove as autoridades. A administração pública do País só pensa em função do dinheiro. A felicidade econômica que se estampa nas fisionomias de burocratas, fruto do estado geral da economia, é um atentado moral contra milhares de brasileiros cansados de pedir justiça.
Os estoques vazios de remédios nos hospitais não acham nenhuma graça na alegria exuberante e no olimpismo triunfante do presidente da República. Onde está a cruzada moral que ele, como comandante maior do País, deveria promover? Por que não lidera, com determinação e força, uma ampla e definitiva campanha de desarmamento no País? Até quando vamos ver crianças e adolescentes engrossarem o batalhão das drogas e da violência nas ruas? Até quando as periferias de nossas cidades continuarão a ser imensas oficinas de morte? Até quando os milhares de brasileiras pobres, miseravelmente fecundas, continuarão a conceber apenas para chorar e viver em estado de quase luto perpétuo?
Conta a tradição que os filósofos Demócrito e Heráclito expressavam diferentes opiniões a respeito da condição humana. O primeiro, considerando-a vã e ridícula, tinha sempre, em público, um semblante risonho e zombeteiro; o segundo, sentindo piedade e compaixão pelo ser humano, aparecia sempre com os olhos marejados de lágrimas. O presidente Fernando Henrique e seus burocratas gostam até de imitar Demócrito, mas o povo é mais Heráclito. Nesse momento, o riso parece violência.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular universitário em São Paulo e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)
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