Risos e choros de outono - Gaudêncio Torquato
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quinta-feira, 13 de maio de 1999
Gaudêncio Torquato 
No Piauí, o Estado mais pobre da Federação, o Tribunal Regional do Trabalho está construindo, com verba superfaturada, um enorme prédio, em forma de navio, onde cada juiz ocupará um andar. Será mais um elefante-branco da farra de extravagância e corrupção, que tem como símbolo principal o ex-presidente do TRT de São Paulo, juiz aposentado Nicolau dos Santos Neto, acusado de possuir altas somas em paraísos fiscais. Nos hospitais do Rio, doentes sofrem com a falta de remédios para hipertensão, diabetes, tuberculose, doenças cardíacas e mentais. No Hospital Salgado Filho, a máfia dos papa-defuntos transformou um auxiliar de enfermagem em um monstro, que teria assassinado mais de 100 doentes. Em São Paulo, as chacinas se multiplicam. E o Brasil entra no rol dos cinco países mais violentos do mundo. Nos Estados Unidos, Fernando Henrique anuncia, com pompa, que o pior já passou.
Estas paisagens de outono, enfatizadas pela mídia, escancaram a enfermidade física e moral que consome o País. A lógica diria que os eventos acima descritos não fazem parte do mesmo sistema. Como seria possível a um país que sai garbosamente da crise, exibir cenas tão chocantes, como as quilométricas filas de desempregados, em São Paulo, onde profissionais qualificados, com curso superior, submetem-se a uma seleção para limpar ruas e ganhar o salário mínimo? A violência generalizada - a que mata, a que rouba, a que corrompe, a que sonega, a que engana - expressa a dura realidade que as elites políticas teimam em reconhecer: o País está à beira de uma catástrofe social. Só não vê quem não quer.
O monstro do Rio de Janeiro não pode ser considerado uma exceção patológica. Trata-se de produto de um tecido social, cada vez mais esgarçado, doente, deteriorado. Basta analisar seu frio depoimento, ao reconhecer que matava por dinheiro, ensejando a constatação daquilo que os filósofos, um dia, chegaram a anotar: o homem da sociedade consumista constrói sua alma de acordo com a situação material. Será que o ser humano se transforma cada vez mais em um acessório da fortuna? A máfia que empregava Edson Izidoro é um parafuso da monumental engrenagem de desconstrução social, que passa a dar as regras, quando o Estado do bem-estar fica desconjuntado.
Exemplo de priorização do valor material sobre o sentimento espiritual é dado pela própria Prefeitura do Rio de Janeiro, com a idéia de acalentar familiares dos doentes assassinados com uma indenização. Dinheiro pode repor a presença de um ente querido? A pungência do desabafo queremos Justiça e não dinheiro não comove as autoridades. A administração pública do País só pensa em função do dinheiro. A felicidade econômica que se estampa nas fisionomias de burocratas, fruto do estado geral da economia, é um atentado moral contra milhares de brasileiros cansados de pedir justiça.
Os estoques vazios de remédios nos hospitais não acham nenhuma graça na alegria exuberante e no olimpismo triunfante do presidente da República. Onde está a cruzada moral que ele, como comandante maior do País, deveria promover? Por que não lidera, com determinação e força, uma ampla e definitiva campanha de desarmamento no País? Até quando vamos ver crianças e adolescentes engrossarem o batalhão das drogas e da violência nas ruas? Até quando as periferias de nossas cidades continuarão a ser imensas oficinas de morte? Até quando os milhares de brasileiras pobres, miseravelmente fecundas, continuarão a conceber apenas para chorar e viver em estado de quase luto perpétuo?
Conta a tradição que os filósofos Demócrito e Heráclito expressavam diferentes opiniões a respeito da condição humana. O primeiro, considerando-a vã e ridícula, tinha sempre, em público, um semblante risonho e zombeteiro; o segundo, sentindo piedade e compaixão pelo ser humano, aparecia sempre com os olhos marejados de lágrimas. O presidente Fernando Henrique e seus burocratas gostam até de imitar Demócrito, mas o povo é mais Heráclito. Nesse momento, o riso parece violência.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular universitário em São Paulo e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)
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