RISCOS VIRTUAIS - Tecnologia pode aproximar famílias
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sábado, 15 de outubro de 2011
Silvana Leão <br> Reportagem Local 
Não tem mais volta. As tecnologias que permitem a comunicação em tempo real com qualquer parte do mundo conquistaram, principalmente, as novas gerações. O perigo é que ao mesmo tempo em que se comunicam em tempo real, os jovens se veem diante de um volume cada vez maior de informações, e muitas vezes não têm maturidade para utilizar da melhor maneira esse turbilhão de dados. E quando o assunto envolve sexo, os riscos são ainda maiores.
Para Maria Helena Vilela, enfermeira da área de saúde pública e diretora executiva do Instituto Kaplan, organização não governamental que trabalha há mais de 20 anos com educação sexual em todo o País, é preciso aproveitar a brecha oferecida pelo uso maciço da internet para abrir um canal de diálogo com os filhos.
''As mídias tanto aproximam como afastam, se a gente não souber fazer uso delas. É preciso ver em qual direção os jovens estão caminhando e nos aproximarmos deles. Não adianta esperar que eles procurem formas de se aproximar de nós'', sentencia.
De acordo com Maria Helena, esse é o caminho que os educadores estão fazendo no Instituto Kaplan e é também o caminho que os pais também deveriam fazer.
Como a senhora tem percebido, nos últimos anos, as mudanças causadas pelas redes sociais no comportamento sexual dos adolescentes?
É um impacto. O volume de informação e a facilidade de comunicação tornam o mundo muito pequeno. Transitamos com muita velocidade pelas imagens, informações, e isso cria para o jovem uma demanda de informação muito grande. Se antes da globalização já era difícil para ele administrar e digerir tudo isso, hoje é muito mais. Cada um diz uma coisa diferente sobre sexo, e no final das contas são tantas informações, que ele não consegue aplicá-las na sua vida e distinguir o que de fato é confiável. Vemos que os jovens são muito mais informados, menos inocentes perante os fatos, mas isso não significa que eles apresentem melhor aprendizagem e que estejam de fato conseguindo usar essas informações em seu benefício.
E os adultos, como têm reagido a essas mudanças?
De maneira geral há uma crítica muito grande dos adultos, porque eles não estão preparados para lidar com tudo isso. Vemos que a diversidade não é só sexual, há uma diversidade de valores, de informações, de estilo de vida, e está tudo muito próximo. Antigamente não. Pensávamos todos da mesma forma e esse pensamento não mudava da noite para o dia. Hoje, algo que você diz na sua casa é contestado daqui a dois segundos na internet. E o filho vai trazer isso de volta para a família, questionando por que no caso deles é diferente. Essa massificação, muitas vezes, leva o jovem a criar uma referência do que é certo, e se ele não estiver dentro deste padrão, sente-se diferente. E hoje essa diferença é muito mais marcante do que já foi um dia, porque esse jovem será diferente não só perante ao grupo mais próximo, mas perante a muita gente.
Existe um lado positivo em todo esse processo?
A internet trouxe uma facilidade de comunicação entre os iguais. Se uma pessoa sente-se diferente das outras, por exemplo, é muito mais difícil para ela encontrar alguém que pense da mesma forma por meio das relações tradicionais, porque geralmente trata-se de algo privado, que não se diz para os outros. Dependendo, a pessoa pode se sentir inferiorizada e sofrer muito. Mas hoje qualquer um pode acessar a internet e achar facilmente outras pessoas que gostam das mesmas coisas, que vão poder dizer, inclusive, como fizeram para contar aos seus parceiros sobre suas preferências.
Como é o trabalho de atendimento aos jovens no Instituto Kaplan?
Nós procuramos justamente utilizar esse lado bom da internet, ajudando os jovens a se encontrarem e encontrarem informações sobre sexualidade. Nós temos um site, dentro dele há um blog e também damos plantões de seis horas por dia pelo MSN para esclarecer dúvidas. Sem precisar se identificar, o jovem pode fazer a pergunta que quiser às educadoras. A rapidez na troca de informação proporcionada pela ferramenta cria uma dialética, permitindo que se aprimore e se esclareça de fato as dúvidas vivenciadas naquele momento. E como nós, educadores, não estamos ali para julgar e muito menos para passar valores, vamos direto ao ponto que aflige o jovem.
Que é o que os adolescentes querem...
Exatamente, mas isso dificilmente a família oferece. Em razão de todos os valores que os pais se veem na obrigação de preservar e de um histórico já existente. Muitas vezes fica difícil para o pai deixar de lado a imagem daquele que sabe tudo e olhar para a necessidade do filho. Em geral os pais se limitam a dizer para os filhos usarem camisinha. Eles agem da mesma forma como quando a criança apresenta problemas na escola. Os pais dizem: ''vai estudar'' e, no dia seguinte, quando o filho vai mal, acham que fizeram a sua parte. Mas não é só isso que a criança precisa. Os pais devem procurar saber onde ela está tendo dificuldade, por que ela não está entendendo e o que eles podem fazer para ajudá-la a entender. É isso que os filhos precisam. Porque as mídias são muito fortes e estão muito próximas. Se os pais e a escola saem de perto, só elas terão o poder de educar esses jovens. Não podemos dar essa colher de chá, principalmente para a internet.
Como garantir que os jovens façam uso da internet de forma saudável?
Os pais precisam se aproximar dos filhos, procurar saber o que eles estão vendo, do que estão brincando na internet. Uma boa maneira de fazer isso é pedir para os filhos explicarem como funciona. Os pais têm mania de fazer o papel do ''papai sabe-tudo'', quando na verdade os filhos sabem muito mais do que nós. A gente tem que chegar perto, e não trombar, como fazemos muitas vezes. Dizemos simplesmente ''desliga isso'' e não chegamos lá para saber da vida deles. Não podemos impedir que nossos filhos usem as novas ferramentas, não há mais como voltar atrás. Mas podemos aprender a lidar com elas, e a melhor forma de fazer isso é com os próprios filhos. Sentar do lado, ver o que eles estão fazendo, conversar sobre o que cada um está pesquisando. Assim, o pai vai tentar, junto com o filho, ver o que tem de bom e o que tem de ruim na internet, comentando com propriedade sobre o assunto e até alertando-o sobre os perigos que a rede oferece. É uma grande oportunidade que temos de nos informarmos e ao mesmo tempo educarmos os nossos filhos.
O adolescente não tem condições, sozinho, de perceber os riscos oferecidos pela internet?
Ele não tem condições de fazer essa triagem por falta de experiência. O que ele percorreu de vida até hoje não lhe dá maturidade para que tenha o mesmo discernimento de um adulto, que tem muito mais bagagem para olhar para uma foto na internet e questionar: ''Mas isso não é perigoso?''
Postar fotos é um dos maiores riscos hoje em dia?
Sim, junto com os namoros virtuais, que tanto podem ser fantásticos, como podem resultar em um problema muito sério na hora de se transformar em namoro presencial, quando do outro lado há um adulto. Há casos de garotas que foram estupradas e até assassinadas.
O que os pais devem fazer? Acompanhar os filhos na hora de conhecerem o namorado ou namorada virtual?
É difícil. É querer demais que o adolescente permita que os pais o acompanhem no primeiro encontro com alguém que conheceu na internet. Mas ele precisa estar orientado. Mesmo que os pais não digam para a filha levar uma amiga junto, podem comentar uma história que leram, podem conversar sobre o assunto. O problema é que os pais, em vez de puxar um diálogo para conhecer qual é o mundo desses adolescentes e conhecer o que eles pensam a respeito, já vão para cima e não querem nem ouvir, porque têm medo de não saber como lidar com a situação. E é aí que está o grande problema: a falta de diálogo. Mas mesmo que a mídia e a internet tenham um grande poder sobre os jovens, é preciso lembrar que a família tem um poder muito maior. O que o pai diz e a mãe diz pesa muito mais no conceito deles, por incrível que pareça. Eu costumo dizer aos pais que os jovens têm uma espécie de caixinha preta: a gente pensa que a informação não caiu ali, mas ela está lá sim, e quando o jovem precisar, ele vai acioná-la. São essas referências familiares e das pessoas que lhe são significativas que eles vão buscar para levar para suas vidas.


