A anunciada decisão dos agricultores de reduzir em até 30% o próximo plantio, para que o prejuízo seja menor marcadamente nos Estados do Paraná, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul se afigura como uma catástrofe, porque estes são os maiores pólos de produção e grandes sustentáculos da economia nacional. Na crista das manifestações de alerta que os produtores rurais estão fazendo, o desencanto se esboça, não faltando os que falam em abandonar a atividade rural e deslocar-se para outros negócios que possam lhes dar mais segurança. Se uma nova dilatação de suas dívidas com o Governo e a destinação de mais verbas acabam de ser anunciadas, a ausência de renda irá persistir e o mal que ronda a lavoura não será curado. Todo tipo de atividade rural, hoje, não está dando lucro, e contra números não há mágicas. Produzir uma saca de soja custa mais do que seu valor de venda. Idem com o milho e com a pecuária, para falar apenas das produções de maior volume. A realidade nua e crua é esta: custo de produção mais alto do que a renda. Impossível trabalhar com prejuízo e sem perspectiva de melhora. O preço de insumos importados continuou o mesmo, enquanto o dos produtos agrícolas e pecuários caiu, sem maneira de compensar essa perda. Frustrações de safras, em face de secas anteriores, robusteceram o desânimo e, mais que isso, o desespero de muitos. Esta é a maior crise dos negócios do campo de que se tem notícia. Porque plantar e colher e criar gado dá prejuízo, salvando-se alguns segmentos. Dois mais dois está resultando em três, porque o produtor investe mais do que o retorno do investimento. Não há como enxugar despesas nessa atividade, pois não se pode deixar de gastar com o preparo da terra (que ocupa mão-de-obra remunerada), com sementes e todos os demais insumos, fazer a manutenção dos equipamentos e move-los a preço proibitivo do óleo diesel. E pagar impostos extorsivos. Com o preço dos produtos agrícolas em baixa, a agricultura vem operando no vermelho, e se veio se aguentando até aqui, agora não dá mais, porque as dívidas começaram a fazer água. Valer-se de mais empréstimos para pagá-las será robustecer o ônus. Quando o agricultor não puder mais pagar, o Banco do Brasil lhe tomará as máquinas e as terras. Ontem, neste espaço de opinião, levantou-se a bandeira da eliminação, ao menos temporariamente, de impostos que incidem sobre a agricultura, e se baixe o preço do diesel. A diminuição de arrecadação tributária por parte do Governo e um ganho menor da lucrativa estatal com o óleo diesel irão resultar na salvação da agricultura e em dividendos compensadores para todos. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo bastante conhecedor da realidade dos três Estados citados , precisa dizer ao presidente Lula que ou o Governo toma uma medida heróica e salvadora (que não apenas emprestar mais dinheiro, que tem o custo de juros e será um dia buscado de volta), ou assistirá à degringolada da atividade rural. E isto ficará registrado como um feito sinistro de seu Governo.

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