Estudo realizado com 485 portadores do vírus HIV atendidos pela saúde pública de São Paulo identificou que a faixa etária abaixo dos 25 anos tem a maior proporção de casos de infecção. O perfil dos participantes da pesquisa é predominantemente de homens (78,4%) solteiros (61,7%), com infecção por via sexual (89,4%).

O médico infectologista Esper Georges Kallás, docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), trabalha com pesquisas sobre a Aids desde 1996 e participou desse estudo. Em entrevista à FOLHA, ele confirma que o vírus está se espalhando mais rapidamente entre os jovens, que se sentem ''super-heróis'' diante do HIV.

''Muitos jovens não viram o que foi a epidemia no fim dos anos 80 e começo dos anos 90. Naquela época as pessoas morriam muito mais de Aids do que morrem hoje. Isso pode fazer com que as pessoas tenham uma falsa sensação de segurança''. Confira os principais trechos.

Falta informação aos jovens quando o assunto é Aids?
Quanto mais informação melhor. Não podemos nos contentar com o fato do Brasil ter uma boa reputação do seu programa, relaxar e deixar a coisa andar sem investirmos para aumentar o acesso à informação de boa qualidade.

As campanhas de prevenção são adequadas a essa faixa etária?
As campanhas são consideradas de boa qualidade quando comparadas às de outros países. O Brasil é um dos poucos que investe agressivamente em educação de sexo seguro, que tem programa de troca de seringas e agulhas para usuários de drogas injetáveis e admite a diversidade de uma forma mais aberta. É evidente que o vírus está se espalhando de forma mais rápida entre os mais jovens. Isso não quer dizer que o programa é ruim, mas que deve ser adaptado para a informação chegar aos jovens com maior contundência.

Em outros países a faixa etária de contágio é mais alta?
Segue uma tendência parecida com a brasileira, mas é razoavelmente diferente da epidemia africana. O modo de transmissão do HIV aqui no Brasil parece muito mais com o que é visto nos Estados Unidos do que com o que é visto na África.

Por que esta diferença?
A forma como o vírus entrou no País e também as práticas de comportamento sexual fazem a diferença. Na África, o vírus é transmitido ainda mais cedo que no Brasil e de uma forma muito mais significativa. Em alguns países do continente africano o índice de jovens infectados pelo vírus chega a 30%. No Brasil, a estimativa é de 0,6% em pessoas entre 15 e 50 anos de idade.

Ao que o senhor credita essa diminuição da idade de contágio?
Muitos jovens não viram o que foi a epidemia no fim dos anos 80 e começo dos anos 90. Naquela época as pessoas morriam muito mais de Aids do que morrem hoje. Isso pode fazer com que as pessoas tenham uma falsa sensação de segurança, mas ainda pagamos um preço muito alto por causa dessa epidemia. Temos mais de 10 mil pessoas morrendo todos os anos, temos o custo elevado das medicações para tratamento dos brasileiros que vivem com o vírus, temos efeitos colaterais associados aos remédios que a pessoa precisará tomar o resto da vida. Essa informação às vezes não chega de forma clara para a população jovem, que também tem uma sensação de ''super-homem''.

O senhor é a favor da distribuição da pílula do dia seguinte? Acha que pode influenciar as pessoas a terem relações sem proteção?
A pílula do dia seguinte tem uma finalidade completamente diferente e nunca substituiria qualquer outra medida de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis - DSTs. Por que distribuir a pílula do dia seguinte se a mulher, sabendo que isso existe, vai começar a transar sem camisinha? Se isso aconteceu e a moça foi atrás da pílula, é uma ótima oportunidade de tê-la dentro do sistema de saúde e oferecer a ela um aconselhamento adequado.

Algumas religiões e governos pregam a abstinência sexual como forma de evitar a Aids e outras DSTs. Isso resolve?
Não há nenhum estudo realizado em países ocidentais demonstrando que somente divulgar a abstinência sexual previna a transmissão de DSTs. Agora, nada impede que você, por algumas convicções morais, não tenha relações sexuais até se casar.

O que pode ser feito para diminuir o contágio?
Temos que disseminar o conhecimento, abrir discussão com a sociedade, com as famílias e com os jovens para diminuir o preconceito. O governo também tem de facilitar o acesso a preservativos de barreira. Se todo mundo fizer a sua parte, vamos diminuir muito a transmissão de DSTs e o impacto da epidemia do HIV/Aids.

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