RISCO DE OBESIDADE - Limite é essencial tanto no álcool quanto nas calorias
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de fevereiro de 2011
Paula Costa Bonini <br> Reportagem Local 
Pessoas com histórico familiar de alcoolismo compensam o impulso de beber comendo alimentos calóricos para manter a sensação de prazer. A consequência imediata é que têm grande probabilidade de engordar, assim como quem consome bebidas alcoólicas em excesso. É o que revela pesquisa realizada recentemente na Universidade de Washington (EUA) e publicada na revista ''Archives of General Psychiatry''.
Para o gastroenterologista Alberto Toshio Oba, o que acontece é uma troca de compulsão. ''A pessoa que não pode beber busca outra fonte de satisfação'', afirma. Ele alerta, no entanto, que o problema maior está na baixa qualidade da alimentação e na falta de limites do obeso. Por isso, alerta, o ideal é respeitar limites tanto na ingestão de bebidas alcoólicas quanto no consumo de alimentos calóricos.
Nesta entrevista, Oba explica por que as mulheres com tendência ao alcoolismo têm mais risco do que os homens de se tornarem obesas, aborda os malefícios da ingestão de bebida alcoólica e afirma que o vício depende de fatores externos.
O estudo aponta que pessoas com histórico familiar de alcoolismo compensam o impulso comendo alimentos calóricos. Como o senhor avalia essa relação?
Quando a pessoa come determinados alimentos ela libera um hormônio chamado dopamina, que traz a sensação de prazer. Trocar a bebida por comida é uma troca de compulsão. Por exemplo, uma pessoa pode trocar a compulsão por comida pela compulsão por sexo ou por bebida alcoólica, no caso de não poder mais comer de tudo. O mesmo pode acontecer com quem não pode beber. Em vez de beber, a pessoa come. É uma troca. A pessoa busca outra fonte de satisfação.
Vale ressaltar que o obeso não tem mais fome do que as outras pessoas. O que acontece é que ele não tem limite, não consegue parar. O mecanismo de satisfação parece meio ''retardado''.
A pesquisa mostra que mulheres com histórico familiar de alcoolismo têm mais risco de engordar do que os homens. Por quê?
O metabolismo da mulher é mais baixo e, por isso, ela tem uma tendência maior para a obesidade. Além disso, a mulher tolera menos o álcool.
Por que a dieta média atual é tão prejudicial e contribui tanto para o desenvolvimento da obesidade?
Os alimentos de hoje são muito industrializados e digeridos rapidamente. A farinha de trigo se transforma rapidamente em açúcar. Os alimentos não chegam até a parte final do intestino. Quando a pessoa come corretamente, tendo no cardápio frutas, verduras, legumes e fibras em geral, o alimento permanece no estomâgo cerca de três ou quatro horas. Com isso, a pessoa fica satisfeita. Mas, ao se alimentar mal, esse processo é muito mais rápido e a pessoa sente fome logo.
E qual é ao grau de influência do álcool no problema da obesidade?
Tomar em doses pequenas não vai fazer mal. O problema está no excesso. O álcool, principalmente a cerveja, tem uma grande quantidade de calorias. Uma garrafa de cerveja tem quase mil calorias. E, nesse sentido, é preciso considerar novamente que o metabolismo da mulher é mais baixo. Para o homem desenvolver uma pancreatite ou hepatite precisa de uma dose maior de álcool do que a mulher.
O alcoolismo é genético?
A impressão que se tem é que quando há um histórico familiar de alcoolismo a pessoa tem mais propensão a desenvolver o problema. Mas, na minha opinião, isso não depende do fator genético e sim de fatores externos. Se a pessoa cresce em um ambiente onde beber é normal, ela começa a fazer isso naturalmente. Na Escócia, eles colocam doses de álcool na mamadeira das crianças. O que faz uma pessoa se tornar dependente de determinadas substâncias? Há fatores psicológicos envolvidos e fatores genéticos em relação ao limite, ao fato de conseguir parar de fazer/comer certas coisas. Mas, o que faz a pessoa se tornar alcoólatra é o meio em que ela vive.


