EditorialRisco de catástrofe
A decisão do Paquistão de detonar cinco artefatos nucleares na quinta-feira, em represália à Índia, que há duas semanas fez o mesmo, revela que a estúpida e suicida corrida armamentista persiste no mundo, apesar do fim da Guerra Fria. A falta de sensibilidade de dois governos traz de volta o temor de uma hecatombe capaz de destruir o planeta. Pior que isto é notar que enquanto as antigas potências atômicas detinham uma situação econômica firme (salvo a União Soviética, que ao se esboroar está mostrando toda a fragilidade do organismo que erigiu, à sombra do totalitarismo), Índia e Paquistão rivalizam em miséria. Pode-se dizer, sem medo de errar, que a situação de grande maioria da população indiana é muito pior que a dos brasileiros. O Paquistão não fica atrás. Milhões passam fome, vivem em situação de miséria absoluta. Na Índia há gente que nasce, cresce, vive e morre nas ruas, sem qualquer esperança ou perspectiva. E, com tudo isto, os dois países dispendem quantias astronômicas para manter e desenvolver programas destinados a produzir armas atômicas.
Sabe-se que Índia e Paquistão são inimigos há meio século, desde que surgiram como Estados soberanos, livres do domínio colonial britânico. Há profundas divergências religiosas e étnicas a dividir os dois povos e as diferenças já provocaram três guerras. A posse agora por parte dos dois países de tecnologia capaz de produzir armas atômicas, conforme comprovam as experiências realizadas, traz um novo e mais grave elemento à questão, causando natural temor.
Com efeito, como destacou ontem o especialista do Instituto Internacional de Pesquisas sobre a Paz de Estocolmo, Ravinder Pal Singh, que é indiano, a eventualidade de uma guerra nuclear entre a Índia e Paquistão ‘‘não pode ser totalmente descartada’’ dada à ‘‘crescente irracionalidade’’ das relações entre os dois países. ‘‘Contrariamente às relações russo-americanas durante a Guerra Fria - afirmou Singh - as relações indo-paquistanesas se caracterizam por uma irracionalidade crescente desde janeiro de 1996, quando explodiu a segunda guerra por Cachemira’’, região que os dois Estados reivindicam desde a divisão do Império das Índias em 1947. As declarações ‘provocadoras’ feitas pelos dois lados, após as duas séries de testes, demonstram sobretudo grande imaturidade dos dirigentes desses países, ‘‘que podem acarretar novos comportamentos irresponsáveis’’, estimou Singh.
O premier paquistanês Nawaz Sharif disse que seu país foi forçado pela Índia a fazer esses testes atômicos para ‘igualar as contas’. O premier indiano, Atal Behari Vajpayee, afirmou, depois dos testes paquistaneses, que a política nuclear de seu país era ‘a correta’. Uma única notícia boa, após as experiências nucleares paquistanesas, veio de Nova Delhi. O primeiro-ministro indiano Atal Behari Vajpayee anunciou ontem que seu governo está disposto a realizar conversações com o Paquistão. ‘‘Estamos dispostos a conversar com todos os nossos vizinhos, incluindo o Paquistão’’, disse Vajpayee ao Parlamento, no terceiro e último dia de debates sobre os testes nucleares paquistaneses.
Face ao quadro atual, porém, é pouco. Quando se observa que os esforços internacionais para evitar os testes do Paquistão foram frustrados, que nem mesmo a ameaça de sanções econômicas dos EUA levou o Paquistão a mudar de idéia, tem-se que a situação pode se deteriorar, levando o mundo de novo ao risco de uma catástrofe atômica.

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