Temos sido solicitados a explicar por que o Brasil paga a terceira maior taxa de juros do mundo. Para facilitar a explicação, procuramos traçar uma comparação com a situação de uma empresa. Imaginemos uma empresa sem ativos e com um passivo igual a seis meses de sua receita anual. Sob este passivo, a empresa paga juros muito além das taxas normais e registra mensalmente prejuízos (receita econômica menor que as despesas).
Para suprir este prejuízo, a empresa busca cada vez mais empréstimos, aumentando ainda mais o seu endividamento. Como é uma grande empresa, possui diversas filiais, desenvolvendo diversas atividades. Na tentativa de reduzir os seus empréstimos, acabou por vender filiais que eram rentáveis. Os empréstimos obtidos, ao invés de ser aplicados no sistema produtivo para geração de riquezas são aplicados no ‘‘embelezamento’’ das instalações. Na pintura da fachada.
Se esta empresa viesse até você para pedir um empréstimo, o que você faria? Certamente, para fornecer o empréstimo, exigiria todas as garantias do mundo para ficar seguro de que a empresa cumprirá com seus compromissos. Inclusive estabelecendo normas gerenciais para a empresa, fazendo com que a mesma seja conduzida no sentido de que os empréstimos venham a ser pagos, não é mesmo?
De quem é a culpa pela empresa encontrar-se nessa situação? Obviamente é de seus administradores, que a deixaram ficar em tal situação.
O Brasil, na condição de gerador de riquezas, como uma empresa, possui um conselho executivo, que é seu Poder Executivo, e um Conselho Administrativo, que é seu Poder Legislativo. O conselho de administração dita as normas para o conselho executivo e fiscaliza as suas contas. O conselho executivo, por sua vez, cumpre com as normas estabelecidas pelo conselho de administração.
Porém, diferentemente do que acontece em uma empresa particular, a empresa Brasil é administrada sem lógica, sem objetividade, sem organização. Tanto o conselho administrativo como o conselho executivo desconhecem as normas para a boa condução de uma empresa. Para esses administradores, tudo parece muito simples. Dispensam o conhecimento das normas sobre origem e aplicação de recursos. Se falta dinheiro, basta aumentar ou introduzir novos impostos. A população é quem paga. A população faz milagres, é capaz de tirar dinheiro de onde não há.
O Brasil é uma empresa que foi e está sendo muito mal administrada. Possui um conselho administrativo (seu Poder Legislativo) que ainda não conhece suas responsabilidades. O conselho executivo, por saber da inoperância do conselho administrativo, faz o que bem entende. Os acionistas desta empresa (o povo), por desconhecerem o modo como funciona uma empresa, acham que está tudo bem e acabam reelegendo seus diretores para que continuem administrando a empresa do mesmo modo. E assim a empresa Brasil vai gerando cada vez mais prejuízos e incerteza quanto ao futuro.
É necessária uma mudança de atitude. Devemos começar a exigir dos administradores a prestação de contas. Prestar contas não é simplesmente dizer o que foi feito, mas informar quanto ao modo como se fez o que foi feito.
SALÉZIO DAGOSTIM é presidente da Confederação Nacional dos Contadores

mockup