Nos últimos quatro ou cinco dias tenho lido e ouvido muitas opiniões sobre os fatos ocorridos em 28/10/2025, na cidade do Rio de Janeiro. No entanto, percebo que muito poucos sabem realmente por que o fato aconteceu. Para compreender isso, é preciso conhecer sua origem. Então, resolvi escrever, não uma opinião, mas um relato documental, para ver se alguns que nada sabem comecem a tentar saber.

A origem de tudo o que aconteceu cabe a um homem: Leonel de Moura Brizola. Político gaúcho declaradamente de esquerda, radicalizou todos os aspectos da vida e foi opositor de qualquer um que não apoiasse suas ideias.

Exilado durante o governo militar, retornou em 1979, influenciado pelas ideias de Abdias do Nascimento sobre políticas de identidade — que distorceu a seu bel-prazer — e fundou o PDT, pelo qual foi eleito governador do Rio de Janeiro em 1982, para o mandato de 1983 a 1987.

Foi nesse período que, contrariando projeto que visava retirar os moradores das favelas do Rio de Janeiro — concentradas mais próximas ao Centro da cidade — para colocá-los em casas populares em bairros mais afastados, optou por entregar aos moradores apenas o certificado de posse dos terrenos que ocupavam, para que construíssem, eles próprios, suas moradias. Alegou “facilitar o deslocamento para seus locais de trabalho, que geralmente estavam no Centro e na Zona Sul da cidade”. Não adiantou demonstrar que novas linhas de ônibus atenderiam essas pessoas. Ele foi irredutível e fez o que queria fazer.

Foi também nessa gestão que Brizola determinou que a polícia, militar ou civil, não poderia mais entrar nas favelas. Se alguns, hoje, pensam que isso é obra do atual Executivo ou do Judiciário, estão muito enganados. Essa “lei” já completou 40 anos — período suficiente para quem quisesse dominar todo e qualquer assentamento que surgisse, resultando no que vemos hoje.

Quarenta anos de recrutamento, treinamento e admissão de novos “funcionários”, com o benefício de trabalhar praticamente em casa e ganhar muito acima do trabalhador comum. Nem grandes empresas conseguem manter um sistema de RH, sem alterações, por tanto tempo. Interessante, não é?

Sou carioca e vi tudo isso acontecer sem que ninguém se opusesse a Brizola. Ele ainda teve mais um período de governo, de 1991 a 1994, mas acabou sendo abandonado por todos aqueles que tentou cooptar para suas ideias megalomaníacas do “socialismo moreno”, alguns ainda ativos até hoje. Será que realmente discordavam dele ou apenas queriam as ideias para si? Aposto na segunda opção.

Esta é a explicação da origem do dia 28/10/2025.

Quanto a muitos se dizerem “assustados e chocados” com as imagens que foram publicadas, digo que assustador, chocante e apavorante é acordar às duas ou três horas da madrugada com o som de tiroteios nos morros que ficam a uns 600 metros da sua casa e ver as balas traçantes cruzando o céu — eu as vi no final da década de 1980, talvez antes das pessoas do Oriente Médio; é subir a rua para pegar o ônibus na via principal, às seis horas da manhã, e ter de trocar de calçada porque os ocupantes dos dois morros deixaram três ou quatro cadáveres na calçada da sua rua, às moscas, sem qualquer cobertura, de quem morreu durante a madrugada, para evitar que o rabecão fosse buscá-los lá em cima; é evitar usar certas linhas de ônibus porque, todos os dias, os passageiros são assaltados; é ser assaltada em plena Praça Saens Peña, na Tijuca, com a ponta de uma faca apoiada na nuca.

Tudo isso foi causado pela sede de poder de um homem que lançou mão de tudo o que achava que lhe traria glória e que, desde 1986, entoava o hino da Internacional Socialista, onde filiou seu partido.

E também pela cumplicidade ou covardia de todos que o seguiram no governo do Estado do Rio de Janeiro.

Foram 48 anos, 7 meses e 6 dias vivendo na minha cidade, que há muito deixou de ser maravilhosa, e 27 anos, 2 meses e 12 dias longe dela. E, pela primeira vez, vejo homens, com coragem e honra, tomar decisões diante das quais muitos recuaram.

Que Deus os proteja, porque eles vão precisar.

Nina Cardoso, jornalista (Londrina)


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