Rio: caixa de ressonância do Brasil
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quarta-feira, 03 de julho de 2002
Francisca Vergínio Soares 
Desde que o Rio de Janeiro tornou-se capital do Império luso (1808) e, pouco depois, do Império do Brasil (1822), posicionou-se como o centro das atenções do país. Ele passou a ser o maior centro urbano brasileiro, principal palco da vida política nacional e o mais importante pólo comercial, financeiro e cultural. Isto contribuiu para reforçar o Rio como a ''caixa de ressonância'' do país, refletindo o que ele tem de melhor e de pior.
Este status de centro das decisões, outrora conquistado, perdeu seu potencial quando a capital da República transferiu-se do Rio para Brasília, na década de 60. Isso provocou um esvaziamento no estado fluminense, tanto político como econômico. A inquietação e a desestruturação de modos de vida constituíram-se nos principais aspectos que iriam nortear a re-ordenação do estado fluminense e no redimensionamento da violência urbana naquele estado. Isto, a meu ver, contribuiu para o surgimento de grupos criminosos, principalmente o tráfico de drogas, os quais não mereceram a devida atenção dos sucessivos governos que não incluíram em sua política de segurança pública, estratégias para combatê-lo.
Quebra-se o tradicional paradigma da violência, aquela que antes da década de 80 tinha os assaltos, com ou sem arrombamento, de bancos, carros, residências e apartamentos, dos furtos e roubos nas ruas, etc, muitas vezes sem fazer uso de armamentos pelos seus agressores. É neste sentido que é pertinente usar o termo nova violência, para demarcar que a partir da década de 60 a violência começava a perder ''a inocência dos anos dourados''. Principalmente quando parcelas dos meninos da classe média estavam abandonando as pranchas de ''surf'', as máquinas de ''jet ski'' e as roupas extravagantes, e pegando em fuzis AR-15. Estavam trocando a Coca-Cola com hambúrguer por doses cada vez mais crescentes de cocaína, heroína, maconha e o novo embalo que os Estados Unidos passaram a exportar para os países subdesenvolvidos: o crack e mais recentemente o ecstase.
Os pequenos furtos domésticos para a aquisição das drogas evoluíram para grandes assaltos, sequestros e crimes hediondos, tendo como seus principais agentes a fina flor da classe média. Eles trocaram as ondas do mar pelas drogas, institucionalizando o consumo obrigatório como manifestação de status. Resultado: violência. Basta constatar como os jornais da época passaram a publicar a sequência de crimes praticados pelos filhos da classe média, que viraram vítimas e vilões desse comércio que tem lastros sociais e raízes psicológicas. Portanto, o tráfico de drogas e armas, os esquadrões da morte, os grupos de extermínio, o jogo do bicho, etc, são as principais facetas da nova violência no Rio de Janeiro, que infelizmente não viu florescer na mesma proporção uma política de segurança pública que correspondesse à inovação da criminalidade.
Enfim, o outrora Rio do Império, continua na República ''nova'' a ser a caixa de ressonância no que se refere ao domínio absoluto do tráfico e seu poder paralelo, estão aí os Estados brasileiros cada vez mais parecidos com ele no que tange ao barbarismo implementado pela nova violência.
FRANCISCA VERGINIO SOARES é professora de Sociologia Jurídica e Ciência Política do ICES/Cambé e professora titular (licenciada) de Sociologia da Universidade Cândido Mendes (RJ)


