Imagem ilustrativa da imagem RIO 2016 - Para mudar a cobertura dos esportes paralímpicos
| Foto: Marcio Rodrigues/MPIX/CPB
Docente recomenda que imprensa evite fotos passivas e utilize imagens que mostrem atletas no contexto da competição



Pare e pense: quantas vezes você já viu matérias sobre esportes paralímpicos ancoradas no contexto da superação veiculadas nos meios de comunicação? Foram muitas, com certeza. E elas irão se multiplicar ainda mais no Brasil nos próximos dias com a realização dos Jogos Paralímpicos no Rio de Janeiro, entre os dias 7 e 18 deste mês.
Certamente aparecerão manchetes do tipo "Paraplégico supera trauma e conquista medalhas", e muitas outras que só fortalecem um estereótipo que ronda os esportistas com deficiência. O que se costuma ver são notícias que valorizam muito mais a deficiência que os feitos destes atletas. A realização do evento no Brasil pela primeira vez é uma boa oportunidade de combater estes clichês relacionados à questão da deficiência.
Este é o principal objetivo de um manual produzido pela professora de Educação Física da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Doralice Lange de Souza, em parceria com o também professor Athanasios Pappous, da Universidade de Kent. Intitulado "Guia para a mídia: como cobrir os Jogos Paralímpicos", visa fomentar uma cobertura mais inclusiva e justa do esporte praticado por pessoas com deficiência.
Resultado de um estudo longo e aprofundado de veículos de comunicação de todo o mundo, e também do cotidiano de atletas paralímpicos, o material tem ao todo 16 páginas e traz dicas para jornalistas que vão trabalhar na cobertura dos Jogos.
"A gente viu que a imprensa brasileira acaba fazendo isso também (reforçar estereótipos), seguindo uma tendência internacional", conta a professora, que segue três linhas de pesquisa, entre elas o esporte adaptado e paralímpico, e como a mídia tem retratado os atletas paralímpicos. "A ideia é apresentar algo para otimizar esse momento, para ajudar os jornalistas a passarem uma visão um pouco mais positiva, mostrando o que pessoas com deficiência podem fazer e não só os seus problemas", complementa Doralice.
O guia, patrocinado pela Fundação Araucária/Newton Fund, está disponível para download no site da Universidade Federal do Paraná (ufpr.br) e nos próximos dias estará também no site do Comitê Paralímpico Brasileiro (cpb.org.br).

Como nasceu a ideia de produzir o manual?
Há dois anos eu tinha um grupo de pesquisa e estávamos estudando os possíveis legados da realização dos Jogos Olímpicos no Brasil. E aí começamos a pensar nos Jogos Paralímpicos. Será uma grande oportunidade, com 173 países, mais de 4 mil atletas. Para muita gente, será a primeira vez que estarão vendo pessoas com deficiência praticando esportes. Pode ser, dependendo de como as pessoas tiverem acesso a eles, que os Jogos deixem um legado grande à sociedade no sentido de dar visibilidade a pessoas com deficiência, mostrando suas habilidades e o que elas podem fazer, porque a sociedade tem esse imaginário de que elas têm muitas limitações. A gente tende a não olhar para o que elas podem fazer, normalmente olhamos para o que elas não conseguem fazer. Sem querer, os jornalistas acabam reforçando alguns estereótipos acerca das pessoas com deficiência, tratando-as como se fossem coitadinhas, que precisem de ajuda, ou às vezes até como super-heróis. Isso é porque existe um imaginário na sociedade de que as pessoas com deficiência são sofredoras e limitadas.

O manual pode possibilitar a promoção de imagens mais positivas dos atletas e pessoas com deficiência em geral?
Ele traz uma série de dicas para os jornalistas. E uma delas é: se há pouco espaço para fazer a cobertura, ao menos comece com coisas positivas, evite usar termos como aleijado ou tetraplégico, o melhor é enfatizar que o cara é um atleta. Nem sempre as pessoas com deficiência são sofredoras, boa parte delas é muito bem resolvida com sua condição. Eles são atletas de alto rendimento e querem ser tratados como tal, não como coitadinhos. Por exemplo, deve-se evitar termos como "vítima de", pois eles não se sentem assim. Talvez muitas pessoas com deficiência se sintam, mas atletas de alto rendimento, não.

Por que a senhora acredita que se criou esse estereótipo tão usado pela mídia ao falar de esportistas com deficiência?
Isso é uma coisa que rende na mídia, é uma estratégia forte. Fica muito mais interessante começar uma história assim: "Biamputado após acidente na Fórmula Indy hoje é campeão mundial". Essas histórias de superação chamam a atenção da sociedade, nós, humanos, gostamos de ouvir essas histórias. São estratégias que a mídia usa para atrair atenção das pessoas, e podem ser inspiradoras. Têm o lado positivo, de fazer com que as pessoas leiam mais as notícias e aprendam sobre as dificuldades que os atletas já passaram na vida, mas por outro lado acabam reforçando esses estereótipos.

A senhora se lembra de algum caso mais emblemático de constrangimento nessa relação imprensa/atletas com deficiência?
São muitos casos. Até pouco tempo atrás era comum achar notícias assim: "Aleijado ganha medalha olímpica para o Brasil"; ou "Fulano, que sofreu um acidente de carro, perdeu o braço", e aí por último conta o feito atlético da pessoa. Existem narrações que ficam muito em cima da tragédia e não no feito que a pessoa realizou. Não que seja errado, mas muitas vezes o espaço da notícia é curto e é priorizada a tragédia ou a limitação da pessoa.

É notável a diferença de padrão de cobertura entre Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Isso se deve a uma falta de interesse da mídia pelo esporte paralímpico? O fato de os Jogos serem no Brasil pode mudar essa visão?
Isso está bem relacionado à questão do patrocínio. Há ainda muito preconceito e medo por parte de patrocinadores em potencial de associarem suas marcas ao esporte paralímpico, pessoas com deficiência, que supostamente têm algo errado. As marcas gostam de promover o que eles veem como saúde, perfeição e determinados padrões de beleza. Há também uma questão histórica, pois os Jogos Paralímpicos são bem mais recentes, mas tem essa questão do patrocínio, porque para estar na mídia você precisa do interesse deles. O que notamos é que com a realização dos Jogos no Brasil a visibilidade do esporte para pessoas com deficiência aumentou bastante. O Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) tem feito um trabalho incrível de marketing, as próprias redes de televisão têm promovido programas que mostram as pessoas com deficiência. Acho que é um legado, mas infelizmente a tendência é não ficar se não for feito nada para alavancar esse movimento para que ele continue se fortalecendo. No caso de Londres, que recebeu os Jogos em 2012, pesquisas mostram que o esporte paralímpico ganhou muita visibilidade durante o evento, mas isso já tem diminuído.

O manual pode ser um ponto de partida para mudarmos de vez essa visão de que a vida de um atleta com deficiência é pautada sempre pela superação?
A gente espera que sim, mas ainda não sabemos o quanto de visibilidade ele terá. É uma pequena iniciativa, não acho que vamos mudar da noite para o dia. Mesmo trabalhando com este tema há um ano e meio ainda carrego estes estereótipos, a gente cresce com isso. Não acho que os jornalistas vão mudar tão rapidamente, mas o jornalismo tem um papel importantíssimo. Se pode fazer algo em prol desse movimento, é mostrar o que as pessoas podem fazer e não o que elas não estão fazendo. Por trás delas há uma equipe, geralmente tem apoio do governo e isso não é mostrado. São condições que ele (atleta) encontrou para isso, ao contrário de milhares de pessoas com deficiência que não tiveram.

O que isso pode representar em termos de mudanças efetivas para os esportistas?
Existem estudos que mostram que as opiniões deles são divididas. Alguns detestam essas histórias de vida, que foquem na história de sofrimento. Eles querem que falem da superação no contexto da competição. Mas existem outros atletas que gostam, porque essas histórias são válidas por atraírem a atenção da sociedade, para que prestem atenção na realidade deles. Para os atletas, acho que está mudando bastante. Há séries na TV que estão mostrando todo esse potencial dos esportistas, então acho que eles olham para isso e imagino que se sintam muito orgulhosos. Em uma dessas séries, uma atleta disse: "Não sou uma coitadinha, sou atleta de alto rendimento e quero me tratem assim". E a maioria deles espera que se fale deles como profissionais do esporte. Acredito que hoje as pessoas tendem a valorizá-los muitos mais como atletas.

O manual cita também uma série de dicas aos fotógrafos. Quais as mais relevantes?
Existe uma tendência de mostrar os atletas em fotos passivas, sentados na cadeira de rodas com a medalha ou parados olhando para alguma coisa. Já que há pouco espaço, então que se coloque uma foto dele no contexto esportivo, correndo, saltando, combativo. Isso valoriza as imagens positivas deles e quem sabe isso possa inspirar outras pessoas com deficiência a tentarem também.

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