RIO 2016 - De sonho a pesadelo?
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sábado, 04 de junho de 2016
Celso Felizardo<br> Reportagem Local 
Em 2009, o Brasil se aproveitava dos bons ventos do cenário econômico, que apontava o País como uma das novas potências mundiais. Um dos frutos colhidos foi a eleição do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Com projeto orçado em R$ 28,8 bilhões, a cidade superou Chicago, Madri e Tóquio e se tornou a primeira da América do Sul a ser escolhida para sediar o evento. Sete anos depois, a exatos dois meses da abertura das Olimpíadas, a realidade é outra. Com a economia em grave recessão, acompanhada pela tumultuada conjuntura política, há o temor de que o sonho possa se tornar pesadelo.
O especialista em Políticas Públicas voltadas ao Esporte e professor de Educação Física na Universidade Federal do Paraná (UFPR) Fernando Mezzadri avaliou as principais preocupações da organização e as deficiências que impedem o País de se tornar uma potência olímpica. No geral, ele acredita que as expectativas são boas e que o Rio terá condições de realizar o evento sem grandes contratempos. Ele ressaltou o investimento do governo federal no esporte nos últimos anos, mas criticou o fato de que muitas obras ficaram para a última hora.
Mezzadri vê grandes dificuldades para o Brasil atingir o objetivo de ficar entre as dez primeiras posições no quadro de medalhas. Segundo ele, quatro anos de investimentos é um período muito pequeno para consolidar o País no topo do ranking. Ele defende a criação de um sistema nacional de esportes, instrumento que permitiria organizar o processo de formação de atletas, eliminando sobreposição de ações entre os diferentes entes federativos.
Sete anos depois da eleição do Rio de Janeiro como cidade sede das Olimpíadas de 2016, há praticamente um outro Brasil, em péssimas condições políticas e econômicas. Qual é a expectativa a dois meses da abertura do evento?
Quando o Brasil foi candidato em 2009, estava crescendo ainda. O mundo estava em um cenário econômico muito positivo. Então, foram projetados alguns espaços grandes, como a Vila Olímpica e centros de competições na Barra da Tijuca, onde estão sendo finalizados inúmeros aparelhos importantes. Nós não esperávamos estar passando por essas questões econômicas e políticas neste momento da nossa história. Isso prejudica e cria uma nuvem sobre as Olimpíadas, porque o foco central hoje não está voltado diretamente para o desenvolvimento olímpico. Porém, apesar de todas as dificuldades, ações e obras foram se efetivando. Creio que há uma perspectiva boa para a cidade.
Questões como segurança e mobilidade urbana são apontadas como os maiores desafios para a organização.
Muitas coisas, principalmente em relação à mobilidade urbana, ficaram para cima da hora. Acredito que esses dois pontos devam demandar toda a atenção possível para não prejudicar os Jogos. O Brasil teve sete anos para fazer sua organização e durante este período muitas obras ocorreram no Rio de Janeiro e isso tem que ser reconhecido. No entanto, algumas obras ainda preocupam, como o Velódromo e o Centro de Tênis, que estão com 83% e 90% das obras concluídas faltando pouco tempo para o evento.
Acredita que o momento político possa ofuscar os Jogos?
Para a organização dos Jogos, eu não vejo que esse momento político possa atrapalhar tanto. O foco dos brasileiros não está na organização das Olimpíadas. Isso é fato. Nós temos as atenções voltadas às questões econômicas, sociais e políticas que o País está enfrentando, o que é natural que ocorra neste momento que o País está passando. Mas eu acredito que, chegando mais perto dos Jogos, nós daremos mais atenção a este grande evento mundial.
Historicamente, há um bom desempenho do país sede nas Olimpíadas. Acredita que o Brasil tem condições de manter a tradição?
A expectativa do Comitê Olímpico é que o Brasil termine entre os dez primeiros lugares no ranking. Não é uma tarefa simples de ser cumprida, pelo financiamento e pela própria lógica do esporte brasileiro. As políticas públicas começaram a se tornar mais efetivas com a criação do Ministério do Esporte, a partir de 2003. Foram se consolidando ao longo dos anos, mas ainda é um período muito pequeno para mudar toda a infraestrutura do esporte brasileiro. Vários projetos foram potencializados a partir de 2009 e outros foram criados pelo governo federal, como o caso do Bolsa Atleta e o Plano Brasil Medalha. Por mais que tenhamos um investimento muito grande neste momento, no último ciclo olímpico, de 2012 para cá, em que o investimento para o esporte tem sido bastante significativo, principalmente para o alto rendimento, ainda não é o suficiente para o Brasil ter sucesso e permanecer entre as principais potências olímpicas. Isso requer muito investimento, mas também perenidade, ou seja, requer muitos anos de investimento público e também privado.
As falhas no processo de formação dos atletas impedem o Brasil de se tornar uma potência olímpica?
Sem dúvida nenhuma. O País carece da definição de um sistema nacional de esportes. Este seria o maior legado para o País, porque muitas vezes há uma sobreposição de ações entre os entes federativos, entre os governos municipais, estaduais e o federal. Isso faz com que o esporte de alto rendimento tenha um incentivo a mais que as outras modalidades esportivas, principalmente esporte educacional, iniciação esportiva. Eu acho que os municípios deveriam incentivar junto às escolas o esporte educacional, o esporte escolar. Essa é uma ação importante a ser feita. Mas como não temos um sistema específico, acabamos fazendo sobreposições de ações. As escolas têm papel fundamental nesse processo, na formação da cultura esportiva para a nossa sociedade. Somente a partir dessa cultura podemos ter mais atletas de alto rendimento. Além disso, precisamos ter uma sociedade que pratique esporte e uma atividade física.
Os Jogos do Rio nos deixarão um legado substancial?
Temos o legado tangível e o intangível. O tangível é mais fácil de nós observarmos, que são as construções dos espaços físicos, dos equipamentos urbanos, as pistas de atletismo no Brasil inteiro.
O Paraná recebeu investimentos para o centro de canoagem em Foz do Iguaçu, a UFPR recebeu uma pista de atletismo de padrão internacional. Maringá também recebeu equipamentos. Agora, temos que pensar como potencializar isso após as Olimpíadas. Existe a questão da manutenção. Não é só a manutenção física dos equipamentos, mas sim de projetos de desenvolvimento de cidadãos atletas. Esta é a grande questão que o País tem que pensar, o legado intangível, o qual considero o mais importante. Qual é o projeto proposto para toda a estrutura que consumiu bilhões de reais? Essa é a preocupação central. O esporte não pode sair da pauta central da política. De outra forma, todo o esforço que começou em 2007 com os Jogos Pan-Americanos será perdido.


