Rindo mudamos os costumes
Walmor Macarini
Os bancos não são perversos apenas na cobrança de juros assassinos e pelos mil-e-um débitozinhos que vão arbitrariamente colocando em nossa conta, mas também na conduta com os clientes e os cidadãos.
Segunda-feira este jornal publicou a hilariante fotografia de uma atitude que a comunidade da Boca Maldita tomou, em Curitiba, ao colocar uma galinha do lado de dentro das grades de um portão que o Banco Itaú instalou, defronte do estabelecimento, só pela crueldade de evitar que as pessoas se sentassem nos degraus de sua escada.
A galinha foi a forma de manifestar a revolta, e não faltou que um passante indagasse: ‘‘Ué, o banco agora também está criando galinha?’’
Rindo mudamos os costumes, já nos ensinavam os gregos.
Aqui em Londrina, o Banco Mercantil de São Paulo, na esquina das ruas Minas Gerais e Maranhão, há vários anos colocou hastes de ferro na mureta em frente, para também impedir que as velhinhas e velhinhos cansados, e os operários, e as crianças, sentem-se um pouco para descansar. Alguns, eventualmente, até depositantes de caderneta de poupança do próprio banco.
Quem acredita na lei do retorno já sabe que aqueles que mandam colocar esses obstáculos, um dia poderão amanhecer com uma terrível dor nas cadeiras ou uma inexplicável comichão no traseiro, e serão vistos sempre gemendo e se coçando...
Nas praças de Londrina muitos bancos cimentados têm corcovas, como aquelas dos camelos dromedários. Perguntei a um secretário da prefeitura o porquê disto, e ele disse que era para os desocupados não se deitarem ali. Veja-se o poder dessa autoridade municipal: de juiz e de punidor.
Gente do poder público e os bancos não gostam de dar conforto para as pessoas. Veja-se, nas repartições públicas, como os cidadãos são desprezados e maltratados.
Aqui em Londrina, depois de muitos anos, o Banestado resolveu colocar cadeiras, para acomodar as pessoas que esperam, e adotou o prático sistema de senhas. Imediatamente o Banco do Brasil – não certamente com a intenção de dar conforto mas por causa do exemplo do concorrente – também adotou idêntico sistema. Mas depois voltou ao que era, ou pelo menos não tem bancos em todos os setores de atendimento. As cansativas filas nos caixas continuam – e não apenas lá – com poucos atendentes, porque é preciso aumentar o já exorbitante lucro, dispensando funcionários...
A gente até sente vontade de fazer uma doação aos bancos – pobrezinhos! – levando para lá umas cadeiras, ao menos para aquelas pessoas idosas e doentes que têm que ir lá retirar as aposentadorias, as poupanças, pagar as contas.
Quanta perversidade desses bancos! Seus balanços anuais registram lucros estratosféricos, só possíveis em paraísos como o Brasil, mas eles não investem no conforto de seus clientes. E, se não bastasse o que cometem no lado de dentro – com a conivência do poderoso dono da República que é o ditador Pedro Malan – ainda praticam suas barbaridades lá fora, construindo empecilhos para as pessoas.
Eles não são apenas maus, eles apreciam mostrar que são maus!
Os bancos têm tanto espaço ocioso – como as agências do Banco Bradesco, no centro de Londrina – que dariam para abrigar dezenas de famílias sem teto. Espaço sem utilidade, porque o banco não o usa.
E veja-se o luxo das casas bancárias. Prédios suntuosos, revestidos de mármore, em flagrante contraste com a miséria da maioria dos cidadãos. E aqueles gerentes engravatados! Se todo mundo que entra em banco veste roupa simples, por que esse aplomb dos gerentes? Deve ser para intimidar ainda mais o paciente, aquele que entra no banco de chapéu na mão suplicando um papagaio e que estampa um rosto tão denunciador que mais parece um pedinte, quando deveria apresentar-se com altivez, porque há de se pressupor que pedir dinheiro em banco seja um negócio civilizado. Infelizmente não é, no Brasil. Aqui é mesmo submissão, humilhação. E os gerentes se valem disto, pois encaram o paciente com aquele desdém e olhar de analista, medindo seu potencial de liquidez.
Na semana passada a sociedade organizada de Londrina colocou uma pedra de uma tonelada, no Calçadão, para mostrar a rigidez e a firmeza de seu protesto contra a corrupção na prefeitura. Em Curitiba, colocaram a galinha por trás da grade do banco. E o efeito foi surpreendente, porque este jornal publicou a foto e o banco não resistiu ao ridículo: mandou imediatamente retirar a grade.
Se uma galinha tem esse poder, imagine-se um porco ou um bode colocados por trás das grades dos bancos, em protesto contra a violência dos juros!!!
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina
-

mockup