Ricardo Noblat
Safra de joio
Entre tantas definições críticas que existem para o jornalismo e os jornalistas em geral, gosto particularmente de uma, talvez a mais bem-humorada delas. É a seguinte: jornalista é o sujeito que sabe verdadeiramente separar o joio do trigo. Para depois publicar o joio. O joio no jornalismo pode ser aquele fato sem maior importância que acaba valorizado a ponto de ofuscar outros mais importantes.
Um teórico europeu da comunicação prefere chamar esse tipo de fato de ‘‘não evento’’. Ele não produz consequências, só barulho. Esgota-se em si mesmo. No jornalismo, o joio pode ser também a versão à primeira vista bastante razoável e verossímil. Mas que depois se revela falsa. Ou parcial.
Infelizmente, os fatos mais importantes costumam ocorrer longe dos olhos dos repórteres. Que depois ficam sabendo deles por meio de versões. Quer dizer que as versões dos fatos oferecidas pelos jornalistas estão muito distantes dos fatos propriamente ditos? Às vezes sim, às vezes não. A indústria da informação cobra rapidez na apuração dos fatos. A pressa, quase sempre, é o adubo ideal para o joio.
Época de eleição é pródiga em oferta de joio. Nos últimos cinco dias, o joio se apresentou duas vezes com toda a aparência de bom trigo. A primeira teve como pano de fundo a convenção do PMDB. A segunda, a decisão de Mário Covas de largar o governo paulista para disputar a reeleição.
Jornais, emissoras de tevê e de rádio destacaram a reação tranquila, quase que diria feliz do PSDB e de porta-vozes do presidente Fernando Henrique Cardoso diante dos dois episódios.
No primeiro, o PMDB decidiu não decidir nada, nem lançou candidato, nem apoiou a reeleição presidencial. Prevaleceu a versão oficial de que o presidente nada perdera com isso, salvo uns dois minutinhos de propaganda eleitoral na televisão. A maioria do PMDB, afinal, apoiará a reeleição da qualquer forma.
No segundo episódio, Covas imprimiu um pouco de coerência ao comportamento de quem sempre foi contra a idéia da reeleição. Afastou-se do cargo para não dizerem que o usou em benefício próprio. Novamente prevaleceu a versão oficial. Segundo ela, o gesto de Covas não causou o menor constrangimento ao presidente. Que concorrerá à reeleição sem deixar o cargo. Como permite a lei.
Então quer dizer que o governo se empenhou tanto ao longo dos últimos meses para ganhar o apoio formal do PMDB à reeleição do presidente, desgastou-se tanto por isso como apontam pesquisas simplesmente por nada?
Então quer dizer que ministros do governo e até mesmo o próprio presidente pressionaram tanto Covas em meses recentes para que disputasse a reeleição sem se afastar do cargo e não havia motivo algum para isso?
Uma pista para identificar o joio no jornalismo: ele é uma versão do fato ou uma interpretação dele quase sempre favorável ao governo. A qualquer governo.
- RICARDO NOBLAT é jornalista em Brasília

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