Revolução pelo voto
Em artigo publicado no sábado (''Nem para síndico''), na Folha, a professora e socióloga Maria Lucia Victor Barbosa, de Londrina, pratica mais uma vez seu esporte predileto, que é atacar a esquerda e em especial o PT e seu virtual candidato à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva.
A articulista faz chacotas sobre o programa de governo do PT, afirmando que ele defende privilégios para as estatais e para o funcionalismo público. Disserta ainda, com a sua douta autoridade, sobre o fato de Lula ter defendido os privilégios dos subsídios franceses à agricultura.
Na verdade, o que o líder do PT defende é que os produtores rurais brasileiros recebam as mesmas vantagens que seus colegas da França e dos demais países da União Européia. A UE e os EUA subsidiam sua agricultura com bilhões de dólares. E são com esses produtores que os brasileiros têm que competir. Ademais, a agricultura necessita de políticas públicas sérias, pois além de ser um setor estratégico e da segurança alimentar, é uma atividade de altíssimo risco, já que está sujeita às mais diversas intempéries por ser exercida a céu aberto.
Quanto ao despreparo intelectual do candidato do PT para exercer a Presidência da República, a articulista se esquece que desde 1500 o Brasil vem sendo governado pela mesma elite econômica e intelectual e o resultado aí está. Apesar de estarmos entre as dez economias mais ricas do mundo, estamos entre os piores no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU. Nossos indicadores são comparáveis aos países mais pobres da África.
Nos últimos sete anos, fomos governados pelo sociólogo FHC, colega de profissão da articulista, e que promoveu um dos maiores arrochos sobre a classe média. Sob o pretexto de abater a dívida pública, vendeu a preço de banana ao capital estrangeiro e com recursos e juros subsidiados do BNDES a maioria das estatais - e mesmo assim a dívida pública foi decuplicada. Isso sem contar os bilhões injetados pelo Proer/Proes nos bancos públicos e privados que, após saneados por esses recursos, foram entregues a bancos privados estrangeiros e brasileiros, em condições até hoje não explicadas à sociedade brasileira.
A afirmativa de Maria Lucia ''o Plano Real aumentou o poder aquisitivo da população, especialmente dos mais pobres e, consequentemente, possibilitou-lhes maior capacidade de consumo, inclusive alimentar'' é altamente discutível. Se assim fosse, como então justificar os 50 milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha de pobreza, conforme o IPEA?
A afirmativa de Maria Lucia de que em ''consequência do Plano Real houve a modernização da agricultura através da tecnologia, gerando ganhos de produtividade que acabaram sendo transferidos para o consumidor'' e que ''com isso os alimentos brasileiros baratearam'', mostra o quão fora da realidade vive a ilustre articulista.
O que ocorreu foi que o Plano Real provocou uma brutal transferência de recursos da agricultura para os setores urbanos da economia, mormente ao financeiro. Em consequência disso, o produtor rural passou por um processo de empobrecimento jamais visto na história recente. Milhares de ex-produtores e trabalhadores rurais incham as periferias das grandes cidades, quando não inflam acampamentos do MST. O setor agrícola acumula um endividamento nos bancos da ordem de R$ 30 bilhões. Este fato é solenemente ignorado pelo governo FHC, cuja política econômica reza pela cartilha do FMI.
Está na hora de o povo fazer uma revolução pelo voto. Vamos eleger um ex-metalúrgico, que apesar de não possuir o conhecimento intelectual do atual ocupante do Palácio do Planalto, possui sensibilidade suficiente para entender as necessidades e agruras do povo, aí incluídos os pequenos e médios produtores rurais, responsáveis pela produção dos alimentos que compõem a cesta básica.
- JOSÉ EDMUNDO MOURA é bancário aposentado e pequeno produtor rural em Ribeirão do Pinhal





