REVOLUÇÃO EDUCACIONAL - 'Brasil é o país que mais desrespeita o professor'
''O Brasil é o país que mais desrespeita o professor no mundo.'' ''Educação não resolve tudo, mas sem ela não se faz nada.'' ''Dinheiro para educação não tem. Agora, tem dinheiro para salvar os bancos.'' ''Os professores estão desencantados.''
Quando o assunto é educação, a metralhadora giratória do professor José Eustáquio Romão não poupa ninguém. E autoridade para tratar do tema não lhe falta. Ele é um dos fundadores do Instituto Paulo Freire e trabalhou por 11 anos com aquele que é considerado um dos maiores educadores da história do País. Nesta entrevista, Romão, que trabalhou com Freire até a morte dele, conta como era trabalhar com o autor de ''Pedagogia do Oprimido'' e avalia a qualidade - e os erros - da educação atual.
Como foi a experiência de trabalhar com Paulo Freire?
Foi muito interessante. O Paulo, além da genialidade toda, era uma figura muito interessante de se conviver. Era um sujeito muito humano, muito engraçado, de bem com a vida. Eu achava engraçado, mas era um princípio dele, que dizia que a gente só vira cidadão sendo cidadão, no caso dele, cidadão pernambucano, nortista, nordestino. É afirmando a sua própria especificidade que você é reconhecido no mundo. Não é querendo imitar os outros, não é querendo falar inglês. Tanto que ele falava inglês com sotaque de Pernambuco.
Qual é a importância da Pedagogia do Oprimido, base do pensamento freireano, para a educação no País?
O Paulo escreveu esse livro que caiu como uma bomba na época, tanto que quando veio o Golpe Militar de 1964 ele foi a primeira pessoa a ser presa. A proposta pedagógica do Paulo significava uma revolução em todos os sentidos da palavra. Se o Paulo tivesse implantado os 20 mil ciclos de cultura como o presidente João Goulart havia pedido a ele tenha a certeza de que o golpe não teria sido dado, a população iria resistir. Não resistiu porque os militares foram muito espertos, anteciparam o golpe e prenderam o Paulo.
A revolução contida na Pedagogia do Oprimido é que não é pedagogia para o oprimido, não é pedagogia com o oprimido, é a partir do oprimido. A proposta pedagógica do Paulo Freire faz a crítica da educação que temos hoje dominando que é chamada a educação bancária. Os professores ficam entupindo a cabeça dos alunos com depósitos de informação, como se fosse um banco. E depois eles querem de volta essas informações nas avaliações, com juros e correção monetária.
A proposta da Pedagogia do Oprimido não é depositar nada na cabeça do aluno, não é informar nada, porque ninguém educa ninguém. É tirar o que puseram lá. Puseram muita alienação. Então, o dominado não lê o mundo como devia ler. Lê o mundo com o olho do seu opressor. Parece que ele estava com a razão porque uma experiência feita no Rio Grande do Norte conseguiu alfabetizar umas 300 pessoas em 40 horas. As pessoas liam mesmo, porque estavam discutindo a sua leitura de mundo e queriam ver como se escrevia essa leitura de mundo. Ele teria sido ministro da Educação se não tivesse falecido precocemente. Aí não sei o que aconteceria com este país.
O que mais falta na educação hoje: salário ou qualificação dos professores?
Tudo isso. Para saber por que a educação falha ou por que tem sucesso é óbvio que há um monte de fatores. Em primeiro lugar você tem que ter condições salariais, condições de trabalho. O Brasil é o país que mais desrespeita o professor no mundo. A gente tem vergonha de dizer o quanto ganha o professor brasileiro. Mesmo países mais pobres do que nós respeitam mais o professor. No Brasil todo político diz que educação é prioridade. E fica só no discurso. Dinheiro para educação não tem. Agora, tem dinheiro para salvar os bancos. Educação não é prioridade no Brasil. Se fosse prioridade para a população seria para os políticos. A Pnad (Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios) revela que a educação é a quinta ou sexta prioridade da população brasileira. Educação não resolve tudo, mas sem ela não se faz nada.
E com relação à qualificação?
O Brasil tem hoje cerca de 2 milhões de professores na educação básica. Os dados do MEC são otimistas e falam em apenas 300 mil não titulados. Eu calculo que este número chega a quase 1 milhão. Por que há confusão nas estatísticas? Porque um advogado dando aula de português não é titulado. É titulado para advogar. A maioria dos professores não é titulada. Um médico dando aula de medicina não foi preparado para dar aula. Foi preparado para exercer a medicina. No Brasil, na educação todo mundo mete o bico, improvisa. Se um professor der uma receita ele vai para a cadeia. O médico vem e dá aula e ninguém fala nada.
O problema mais grave é na educação básica. A maioria das pessoas que trabalham na educação básica é leiga. Estou convencido de que quanto mais você desce na escala da escolaridade mais preparado tem que estar o professor. No Brasil, isso é invertido. As pessoas mais inexperientes dão aulas para as crianças. E se o inexperiente fizer um estrago ali o estrago fica para sempre.
Qual é a melhor forma de avaliação dos estudantes?
Avaliar é uma maneira de discriminar. Mas avaliar não é para isso. Quando você tem recursos para ajudar a pessoa depois da avaliação serve para incluir. Mas se não tem nada para ajudar essa avaliação é para excluir.
A proposta da avaliação freireana chamamos de diagnóstico. É igual ao médico, você diagnostica, identifica o problema e dá o tratamento. Tem que ser uma avaliação baseada no diálogo. Tem que perguntar ao professor onde é que ele está com dificuldade. Os professores estão desencantados com a profissão. Há um mal-estar docente generalizado. Hoje tudo cai nas costas do professor. Até a alimentação. As escolas brasileiras viraram o maior restaurante do mundo. Aí a diretora em vez de discutir didática com a professora está correndo atrás de gás, tempero, óleo. As crianças têm que comer, mas não é função da escola dar comida. Tinha que entregar para um outro órgão cuidar da alimentação.
É possível 'reencantar' o professor?
Os professores estão desencantados, mas não é só com problema salarial. Querem condições de trabalho. No entanto, são cobrados por tarefas para as quais não são preparados.





