REVOLUÇÃO - EM CASAMuito além do papai, mamãe e filhinho
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sábado, 13 de julho de 2013
Érika Gonçalves<br> Reportagem Local 
Que a constituição familiar mudou, não há dúvidas. Com o divórcio, aprovado no Brasil há quase 35 anos, muita gente se casa novamente e o núcleo familiar já aceita "novos personagens", como madrasta, padrasto, filhos dos novos parceiros. As uniões entre casais homoafetivos também modificaram o conceito tradicional de família. Mesmo os núcleos familiares formados por pai, mãe e filhos também estão diferentes, já que com a entrada da mulher para o mercado de trabalho o papel de cada um dentro dessa constituição é outro.
A antropóloga e demógrafa Gláucia dos Santos Marcondes, pesquisadora do Núcleo de Estudos de População da Universidade de Campinas (Unicamp) é estudiosa das novas relações familiares. Ela destaca que as mudanças recentes pelas quais passaram as mulheres afetam toda a sociedade. "Dizem que a família vai acabar, mas o que a gente vê é simplesmente uma diversificação nas formas de pensar e de se relacionar em família. Estamos vivendo experimentações, porque ninguém sabe se vai dar certo. Mas o importante é que a diversidade faz com que preconceitos comecem a ruir", aponta.
Quais as maiores transformações da instituição familiar nos últimos 50 anos?
A queda da fecundidade, as mulheres no mercado de trabalho e a média de anos de estudo das mulheres, que é maior do que o dos homens, são algumas (das maiores transformações). Temos famílias menores, com menos filhos e as pessoas estão vivendo mais. Por outro lado, temos menos parentes colaterais. Você também tem uma mudança dos projetos das pessoas em relação a casar e ter filhos. O divórcio é uma possibilidade e, apesar de todos os dilemas que vêm com a separação, é uma alternativa para melhorar a vida, e os filhos também se adaptam a isso.
E uma consequência é um aumento do número de recasamentos, que aumentam o círculo familiar.
Isso complexifica o conjunto de relações. As pessoas têm que lidar com seus ex-companheiros, os filhos do primeiro casamento, o atual companheiro, os possíveis filhos do atual casamento, os filhos dos relacionamentos anteriores do atual companheiro. É uma gama de relações. Precisamos de jogo de cintura para poder nos adequarmos a cada uma das pessoas que têm um papel na nossa vida. É um outro patamar de relação que as pessoas estão aprendendo a cultivar.
Quais são as principais características das novas relações familiares?
O que se nota são as tentativas das pessoas em fazer que suas vidas melhorem, uma atitude de mais diálogo, de consertar o que não deu certo. As pessoas se preocupam bastante com o bem-estar emocional dos filhos. Já se ouve que é melhor ter os pais separados e amigos do que tentar manter o diálogo, manter uma união com brigas constantes, com a perda do respeito e da dignidade. Até as crianças já conhecem alguém da família que não casou "no papel", que já se separou, que está na terceira esposa. Se antes os casais permaneciam juntos até que as crianças adquirissem mais maturidade, hoje você vê casais que se separam mesmo com crianças muito pequenas. As pessoas estão preocupadas com o reflexo que as brigas constantes trazem para os filhos. O diálogo parece que é o grande motor da família contemporânea, mas não sei o quanto ela está conseguindo concretizar esse diálogo.
Porque o diálogo também é algo novo, correto?
Os homens dizem que não querem ser o modelo do pai provedor, austero, distante. Mas como disciplinar, já que você não pode ser um amigo do seu filho? Qual é a dose da disciplina? Até que idade você permite uma autonomia tão grande dos filhos? São várias questões que as pessoas estão tendo que lidar neste mar de grandes mudanças. E hoje tem mais experiências de famílias de dupla renda, em que as mulheres estão no mercado de trabalho, numa jornada tão extensa quanto dos homens.
Algumas mulheres estão aceitando parar de trabalhar por um tempo para ficar mais com os filhos, na tentativa de dar uma melhor educação. Isso é válido?
Uma mulher que não tenha uma rede familiar próxima a quem possa recorrer para cuidar do seu filho pode optar por se distanciar do mercado de trabalho por um tempo, mas elas voltam e cada vez voltam mais. A independência econômica virou algo importante não só para as famílias, mas para as próprias mulheres. Elas se veem em situações em que o fato de também contribuírem para o orçamento familiar lhes dá a condição de fazer exigências. Há muito tempo o salário feminino é um fator de peso para os orçamentos familiares e os homens já entendem como algo importante. É claro que quando há algum problema importante com os filhos, a culpa e a cobrança, de certa forma, vão recair sobre a mulher. A ideia é: pode trabalhar, mas não pode descuidar do filho.
A ideia de que a mulher é multitarefa está se tornando um peso?
Um peso imenso. Não é à toa que se você olhar os dados sobre jornada feminina, dentro e fora de casa, as mulheres têm jornada dupla e até tripla. Elas ocupam cerca de 30 horas semanais com a jornada doméstica, além da jornada no trabalho, enquanto seus maridos gastam nove horas semanais. O peso ainda fica sobre as costas da mulher.
O grande movimento na sociedade atual é das mulheres?
É inegável o papel que as transformações na vida das mulheres tem nas transformações da família.
E como estão os homens nesse novo cenário?
Tem um misto de espectador e de quem tem que reagir. Eles não sabem bem como se portar, o que as mulheres querem, e ainda acham que têm o papel de provedor, têm que ser uma âncora para a família. É claro que o grande teste para os casais é quando os filhos nascem. Se espera que as mulheres cuidem dos filhos e elas também se apegam porque filhos são poder para elas. A mãe pode estar ausente, trabalhar loucamente, mas espera-se que ela gerencie o espaço dela, da família. Mas quando ela assume as rédeas e não dá espaço, também é criticada. Como o marido vai se envolver se ela não dá espaço? O conjunto de relações não é muito simples e depende do estágio de vida que você está. Dizem que a família vai acabar, mas o que a gente vê é simplesmente uma diversificação nas formas de pensar e de se relacionar em família. Estamos vivendo experimentações, porque ninguém sabe se vai dar certo. Mas o importante é que a diversidade faz com que preconceitos comecem a ruir, que pessoas tolerem pluralidades e não vejam o modelo de "papai, mamãe e filhinhos" como o único que realmente dá certo na criação de bons cidadãos, de pessoas que têm pleno bem-estar.


